Um filme delicioso sobre Woodstock - Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee. Um filme bobo sobre como aprender a amar - O amor pede passagem, com Jennifer Aniston.
Literatura - De Mário Bottolotto, Me Gustán las Muchachas Putanas
Me Gustán las Muchachas Putanas
Dessas que chupam as bolas, que entram de sola. Das que não têm meio termo, que abrem as pernas e não pedem arrego. Dessas depiladas, peladas, liberadas, eu as quero desarmadas, eu as quero de boca esporrada, eu as quero do jeito que for, eu as quero tocando bongô, com a boca no microfone, chamando meu nome, no meio da chuva. Dessas que passam gel no cabelo, que a gente flagra no banco traseiro do carro. Dessas que dizem os diabos, que agarram o seu pescoço, que sempre tem um troco. Dessas com aros em forma de brinco, que sabem segurar um pinto, essas entendem o que eu sinto, essas sabem que eu não brinco. Elas se entopem de vodca, assistindo MTV, essas nunca vão chorar por você, elas não vão mentir pra você, elas não têm porquê. Elas não vão contar história, elas não vão dizer que você foi a melhor foda, não vão querer o seu sangue, só o seu dinheiro, não vão querer flores nem caixa de bombons, não te arrastam pra igreja, elas só se enxarcam de cerveja. E se eu digo 'pra mim chega', elas guardam o batom e vão embora. Elas nunca estão de calcinha quando descem as escadas, elas estão sempre dançando, mordendo, chegando de táxi a uma da manhã, elas não são puras, elas são putas. Elas não querem o céu, elas não sabem quem é Nina Simone, elas não querem meu número de telefone. Paixão elas tiram de letra, elas encaram qualquer treta, com uma bela chave de buceta. Eu adoro essas putas loucas, caindo de boca, que nunca ouviram um blues, elas fazem chupeta e dão o cu. Eu as quero sujas, num beco escuro, atrás do muro, meu pau duro abrindo caminho, desprezando carinho, fissura de vinho na segunda-feira, gozando de primeira, comendo pastel na feira. Eu as quero maquiadas, peladas, desbocadas, a mi me gusta. Que se fodam as puras, que gozem as putas.
Meu velho, fique com a mente e o coração tranquilo, porque nesse período que esteve aqui, todo mundo também curtiu muito sua presença. Saiba que essa recíproca é altamente verdadeira. Ao menos de minha parte, esteja certo disso. Se precisasse classificar em poucas palavras você, talvez uma frase curta, seria algo como: "Presença de espírito". Sei que soa mais como slogan de marca de Whisky, daqueles que nos cobram os olhos da cara e nos deixam como novos na manhã seguinte, mas é algo de coração. Diria, até, uma classificação mezzo amigo-de-fé-irmão-camarada, mezzo vamos-dar-o-fora-daqui. Meio rock and roll, meio reggae praiano. Entende o que digo? Eu, em tantos casos, como nesse, não entendo. Com honestidade. Não entendo mesmo. Lembro vivamente daquela vez em que, bêbados, trôpegos pela Jerônimo da Veiga, cantávamos a plenos pulmões uma versão improvável de Ce Mortel Ennui (com seu francês capenga, aprendido com Dona Tereza, aquela sua vizinha da época que moraste em Porto Alegre), do mestre Gainsbourg, entre soluços e gritos desesperados. Parecíamos, com toda certeza, e clareza, dois existencialistas amalucados, apatetados, deslocados no tempo e no espaço. Dois pândegos, diria minha finada avó. Estou mentindo, meu caro? Encaremos os fatos: de tediosa, nossa vida não tinha nada.
Fique com Jah, e mande abraços fraternos na Julinha e no Tobby (cachorro louco aquele seu). Siga sendo aquele cara sempre animado, levantando a moral de todos, o ombro amigo para todas as horas.
P.s.: Não pense você que eu nunca soube que aquela sua citação, "o verdadeiro herói é aquele que se diverte sozinho", é do Baudelaire. Acorde, Pato!
Caderno de anotações, elucubrações, memórias e rabiscos (Parte IX)
E eis que começa a tocar a abertura do filme Superman, aquele em que o herói, faceiro e meninão, usa uma cueca vermelha belíssima por sobre a calça azul. Claro, eu sei, ele é um super herói. Agora, vocês questionam o motivo de começar esse post com essa informação. Não sei. Mesmo. Minha cabeça está ocupada com outras informações, relevantes ou não. Acabei de sair do show do Funk Como Le Gusta. Mais uma vez, e mais um grande show. A rapaziada está a cada dia melhor. Mais afinados. Afiados. Ainda não entendo, e talvez não vá entender nunca, qual o motivo de não ficarem conhecidos e despontarem, de uma vez por todas, para a fama eterna. Quando, meus caros, eles ocuparão o panteão de grandes grupos reconhecidos na música brasileira? Será que não seria a hora e a vez deles? Avaliem vocês mesmos no vídeo abaixo. Durante esse mesmo show, Mestre Bartolo, baixista, pediu para avisar que o esperado CD/DVD de 10 anos do grupo deverá sair em breve. Muito em breve. Enquanto isso, curtam o som, Agente 69:
E ontem foi dia de conferir a estreia de É proibido fumar, novo filme de Ana Muylaert, a aclamada diretora do clássico Durval Discos. Bom, sem muita enrolação, posso dizer que o filme é extraordinariamente simples, com uma estrutura narrativa direta, com ótimos recursos de montagem, direção e fotografia. É mais uma película em que Paulo Miklos mostra sua façanha como ator e Glória Pires se mantém morna. É proibido fumar conquistou quase todos os prêmios do último Festival de Cinema de Brasília. É diversão, é entretenimento, e foge um pouco das preocupações sociais que vêm cansando um pouco no cinema brasileiro. O filme de Ana poderia facilmente ser comparado às ótimas películas argentinas, cujas temáticas são, também, bastante simples e diretas. E, caríssimos, cinema é isso mesmo: uma boa história para contar. E essa, vos garanto, é bem contada. Assistam.
Mais para o meio da semana, em meio à chuva e ao dilúvio que se abateram sobre a cidade de São Paulo, tive que tomar uma duríssima decisão. Assistir um documentário que trata da vida de Eliezer Batista, fundador da Companhia Vale do Rio Doce e um dos pilares do desenvolvimento brasileiro na década de 50 e 60, ou o comentadíssimo filme romeno, Polícia, Adjetivo. Acabei fazendo a escolha mais errada do mundo. Pois sim, fui assistir ao filme romeno. Se eu pudesse expressar em palavras o que senti no filme, poderia dizer que tive desconforto físico. Não, amigos, não há nenhuma cena repugnante, não há sexo com bichos, legumes ou assemelhados. Nada disso. O que há, isto sim, é um cinema parado, sem ritmo, sem sal, sem gosto. Sem absolutamente nada. A língua romena é uma das mais aborrecidas desse globo terrestre. O que há para comentar é que dormi em mais ou menos uma hora e meia do filme, que tinha por volta de duas longas horas. Acordava, vez ou outra, engasgado com meu próprio ronco, com a boca aberta mirada ao teto da sala 4 do Espaço Unibanco de Cinema. Sei que não é certo dormir em cinema. Mas, na minha história de amor ao cinema, deve ter sido a 3ª vez que isso aconteceu. Se montasse uma lista com os maiores micos do ano, Polícia, Adjetivo estaria, sem dúvida alguma, no topo.
Já Tokyo, apanhado com 3 episódios narrando histórias sobre a capital japonesa, é um filme gostoso de assistir. Interior Design, de Michel Gondry, é como todos seus outros filmes. Começa com uma normalidade impressionante e, em certo momento, desencadeado por algum acontecimento simbólico, descamba para uma ficção impressionante, pra lá de deliciosa. Gondry, apesar de fazer todos os filmes com um mesmo enfoque, mostra-se um dos diretores mais profícuos do cinema atual. Leos Carax, cineasta francês, há mais de dez anos sem filmar, nos apresenta um filmete confuso, chamado Merde, que narra a história de um ser qualquer que vive nos subterrâneos da capital japonesa e, vez ou outra, aterroriza os cidadãos com suas bombas. Acho que quem melhor resumiu esse filme foi um espectador que estava ao meu lado na sala de cinema: "Que merda!". Já Shaking Tokyo, de Joon-ho Bong, trata da vida de um hikikomori (um tipo de cidadão que rompe os laços com todo o restante da sociedade e vive sozinho). Por 10 anos, o tal hikikomori vive isolado do mundo, e sem qualquer contato com o mundo exterior. Mas, eis que um dia tudo muda de figura. Quando pega uma das entregas de pizza, os olhares do hikikomori e da entregadora se cruzam e, instantaneamente, ele se apaixona, em meio a um terremoto que chacoalha a cidade. A partir daqui, inicia-se uma peregrinação pela sobrevivência e pelo amor. É simplesmente do caralho esse episódio. Assistam, assistam e assistam. Não sei bem por que, mas esse episódio me lembrou muito um conto de Fausto Wolff, do seu livro A milésima segunda noite.
Para encerrar essas elucubrações de hoje, posso recomendar aos amigos que assistam Julie e Julia. E, se alguém puder, responda a pergunta de um milhão de dólares: Como Meryl Streep consegue ter, reiteradas vezes, atuações tão impressionantes? Como essa mulher consegue se transformar em qualquer personagem? Vejam, abaixo. Ponto alto entre 0:18 e 0:25. Que mulher é essa?
Há algum tempo, talvez meses, poucos, obviamente, li a ótima obra de Hugo Possolo, Palhaço-bomba, uma reunião de textos para revistas e jornais, com artigos que tratam desde política até mesmo a técnicas de palhaçaria, já que o próprio Hugo é palhaço (e não se trata de nenhum tipo de eufemismo. Palhaço, nesse caso é igual a palhaço mesmo). Aos que não conhecem, Hugo é um dos atores que fundaram a Cia. de Teatro Parlapatões, Palhaços e Paspalhões que, hoje, habita a renovada Praça Roosevelt, aqui em São Paulo.
Sem mais delongas, coloco, abaixo, a referida lenda do nariz vermelho. Eu mesmo sempre tive curiosidade de saber de onde surgira, de que forma, em qual circunstância, quando etc. etc. No livro é possível aprender inúmeras coisas com Hugo, entre elas o surgimento dessa lenda. Para conhecer a tal lenda, vocês não precisarão comprar o livro, mas, para demais descobertas e sorrisos de satisfação, será necessário passar na livraria mais próxima de sua casa para comprar o livro.
A lenda do nariz vermelho
Por que o nariz do palhaço é vermelho?
Diz a lenda que, em Londres, no final da Idade Média, eram comuns os encontros nos hipódromos para assistir demonstrações de cavalos. Em meio ao nevoeiro, várias pessoas da cidade se encontravam para conversar. Beber ajudava a passar o frio.
Estas demonstrações eram feias por oficiais da cavalaria que saltavam sobre barreiras e obstáculos. Dizem que, certa vez, um soldado raso, cuja obrigação era colocar as barreiras para os saltos, chegou cedo demais ao estábulo. Como fazia muito frio, bebeu um pouco além da conta. Bêbado, pegou, por engano, o uniforme de um outro soldado muito alto e gordo. Com as roupas desengonçadas, lá foi ele colocar as barreiras e logo na primeira, diante de todos, tropeçou. Foi uma gargalhada geral. Ele tentou se recompor, mas ao ver o capitão muito nervoso, saiu correndo de medo e tropeçou novamente. Todos riam e aplaudiam.
Escondido, ficou esperando pela bronca do Capitão. Mas, para sua surpresa, o Capitão chegou contente com o que tinha acontecido. Afinal de contas, o público estava feliz. O Capitão o convocou para que todos os dias fizesse o mesmo: por roupas largas; tropeçar nos obstáculos; fugir de medo... O soldado logo perguntou:
- Então vou poder beber todos os dias? - Não! - respondeu o Capitão. Para que você pareça um bêbado, vamos pintar o seu nariz de vermelho.
E foi assim, por causa do frio e da bebida, que deixam o nariz vermelho, que teria surgido o primeiro nariz de palhaço. É uma lenda. Se é verdade, ninguém sabe. Porém, ainda hoje no Circo, aqueles que colocam e retiram os aparelhos são chamados de Barreiras e usam uniformes vermelhos com cordões amarelos no peito, como os do soldado da lenda.
Alguns amigos me questionam por que razão eu não adentro os domínios do popularíssimo Twitter. Bem, caros, até gostaria. Mesmo. Porém, como sou da Old School, da turma daqueles seres chatos e ranzinzas que adoram escrever tratados, e não textos, não me adaptaria de forma alguma ao formato de mensagens telegráficas de míseros 140 caracteres.
Meu último texto, segundo minha contagem, teve 10.500 caracteres.
Caderno de anotações, elucubrações, memórias e rabiscos (Parte VIII)
É bom poder trabalhar dessa forma aqui no Quilombo. Quando há conteúdo suficiente e, também, a possibilidade e a vontade de dizer coisas, corro pra cá e atualizo os últimos acontecimentos relevantes. Nessa edição de elucubrações e afins, tem muita música, cinema, literatura, curvas amorosas, descobertas diversas. Conteúdo interessante, acho, para corações e mentes sedentas.
Saudades de Francis
Começando de trás para frente, ontem, graças a uma oportunidade única no trabalho, pude folgar e curtir o dia, como qualquer vagabundo gosta de fazer. Aproveitando a circunstância, bastante interessante, fui conferir o retrato amoroso e particularíssimo do controverso Paulo Francis, em Caro Francis, do diretor Nelson Hoinneff, o mesmo que fez, recentemente, Alô, Alô Terezinha, sobre a obra de Chacrinha. A película é, de fato, ótima, mas, seguindo uma tendência do documentário nacional recente, trata o personagem de uma maneira tão íntima, mas tão íntima, que nos apresenta determinados fatos irrelevantes para o entendimento da figura pública. Claro, em alguns momentos isso traz informações relevantes, mas, na maioria das vezes, nos deixa com um enorme ponto de interrogação na fuça. Como posso dizer que sou fã de Francis, e acompanhei muito de sua obra (livros publicados, por e sobre ele, inúmeros artigos mais ou menos recentes, artigos da época de Pasquim, vídeos do Manhattan Connection e dois preciosos programas Roda Vida, datados de 94 e 95) entendi a maioria dos fatos apresentados. Os pontos mais interessantes do documentário são, obviamente, as aparições engraçadíssimas e eruditas de Mr. Francis, e os comentários, como direi, pra lá de "assertivos", de seu amigo e pupilo Diogo Mainardi. É um documentário de interesse bastante específico, ainda mais em se tratando desse novo Brasil, mais raso em decorrência da popularidade e aprovação de Lula (que beira os 95% entre os que o consideram ótimo ou bom). Porém, se seu intuito é conhecer um personagem brasileiro como poucos, controvertido até o último fio de cabelo, vale muito a pena.
Walter Lima Jr., e sua aula de trilhas para cinema
O domingo da volta de feriado de Zumbi, com a cidade deliciosamente vazia, foi minha data escolhida para conferir o projeto Trilhando, com a presença do cineasta Walter Lima Jr. (Os Desafinados, A ostra e o vento, Ele, o Boto, Inocência, entre outros). Para variar, o excelente trabalho da equipe do Sesc foi visto por pouquíssimas pessoas. Às vezes fico pensando na quantidade de pessoas que reclamam não haver cultura a preços populares. Besteira da grande, meus caros, pelo menos na cidade de São Paulo. Paguei R$ 6 por um ingresso para assistir a um show belíssimo de Leila Pinheiro, Péricles Cavalcanti, orquestração de Roberto Sion, com direito a Sax, clarinete, trompete, baixo acústico, violão, bateria, violino e viola. Não bastasse isso tudo, ainda pudemos assistir a uma aula de cinema e trilhas com Walter Lima Jr. O que posso dizer é que a noite foi especial, com Leila e Péricles desferindo grandes clássicos de nosso cancioneiro, acompanhados pela orquestra de Roberto Sion. Sem dúvida alguma, dos melhores shows que assisti esse ano.
Waldick Soriano, o velho canalha, pero romântico
Sei que sou uma pessoa estranha e diferente na maioria das coisas. Tudo o que foge do famigerado senso comum me interessa. Coisas que ninguém gosta, me interessam profundamente. Se o povo, em geral, odeia, deve ser bom. Se as pessoas comuns não entendem, certamente entenderei e gostarei. Se é marginal, então, deve ser o máximo! Brincadeiras à parte, é sempre muito prazeroso poder ver uma fila de 400 pessoas (adultos, em sua grande maioria) se estapeando para assistir à película Lua Nova, novo filme da saga Crepúsculo, enquanto minha fila para assistir ao documentário Waldick Soriano inexistia. Pode até ser mania persecutória, mas senti olhares de reprovação à minha escolha completamente contramão, ainda mais em se tratando de um sábado à noite. Deviam pensar, ao me ver só, esperando a abertura da sala: "O que leva alguém a assistir um filme desses numa noite de sábado? Esse cara deve ter depressão!". Ou algo do gênero.
O mesmo que eu disse sobre o documentário Caro Francis pode, facilmente, ser comentado sobre Waldick, justamente por causa do tipo de retrato passado no filme. É preciso, sim, conhecer bem Waldick, e sua história e obra, para conseguir compreender todos os pontos destacados e sublinhados no filme. É uma pena, já que quem não tem tanto conhecimento assim desse personagem, como é meu caso, sai do cinema sem entender uma série de passagens aparentemente importantes. Uma pena. Esse é um retrato afetivo construído por Patrícia Pilar (a atriz) e Ciro Gomes (o proto-político do saco roxo), fãs ardorosos de Waldick.
Bra Boys, o documentário
Apenas montando esses escritos é que fui me dar conta do caráter documental do meu final de semana. Esse foi o terceiro documentário que assisti em pouco menos de dois dias. Bom, então, vamos a ele. Bra Boys foi um documentário que baixei, muito por acaso, no salvador blog Arapa Rock Motor, que sempre, invariavelmente, disponibiliza uma série de filmes e documentários alternativos de alta qualidade. Esse Bra Boys, especificamente, me chamou a atenção por dois fatores: o primeiro deles foi a capa, com alguns sujeitos mal encarados, cheios de tatuagens com o marzão servindo de fundo. Logo associei a imagem a algum filme violento realizado na praia. Pensei tratar-se de alguma versão caiçara do clássico The Warriors, que, sempre que posso, assisto e decoro as falas. O segundo fator foi uma frase pequena na capa do filme, "narrado por Russel Crowe". Logo que li o segundo fator, automaticamente desmontei em minha mente o primeiro. Ou seja, tratava-se de mais um exemplar do vasto mundo dos documentários.
Segui meus instintos e o assisti bravamente. Trata-se, como fui descobrir depois, da comunidade "Bra Boys", que habita os arredores da praia de Maroubra, em território australiano. Enfim, caros amigos, o lugar é daqueles paraísos que todos sonham em viver um dia, depois da sonhada aposentadoria. Porém, apesar de possuir uma praia belíssima, cheia de vida, com um mar verde e um clima absolutamente delicioso, os surfistas "Bra Boys" tomam conta do referido paraíso, porém, de uma maneira bastante particular.
A película trata da vida de alguns dos membros da comunidade, alguns famosos surfistas, outros nobres anônimos, suas festas, reuniões, galhofas ao ar livre e, principalmente, suas brigas homéricas. O filme perpassa, também, bastante por cima, a história local australiana, e, em determinado momento, esbarra no melodrama ao tratar de um assassinato que contara com a participação de 2 ou 3 membros da comunidade "Bra Boys". No final das contas, "Bra Boys" se sai muito bem e fica como recomendação aos amigos leitores.
Bom, Nelson Motta é um daqueles sujeitos que todas as pessoas do planeta terra inteiro e das galáxias gostariam de ter sido. Ou, também, isso pode ser mera projeção minha. O cara viveu intensamente a época da bossa nova, conviveu com os maiores ícones musicais desde o começo da década de 60. Acompanhou diversos cantores e grupos em viagens aos Estados Unidos para lançar, lá, o nosso querido e doce movimento, nascido e criado, cheio de ranho no nariz e pés descalços, ali pelas praias de Copacabana, Ipanema e Leblon. Balançava, cheio de suingue, a cabeça e o corpo, pra lá e pra cá, nas famosas tardes de violão e ponche na casa de Nara Leão, ao lado de figuras como João Gilberto, Chico Buarque e Ronaldo Bôscoli. Fez parcerias de extremo sucesso com inúmeros cantores, comeu a Marília Pêra e a Elis Regina, produziu e lançou, no começo da década de 90 a, hoje, diva absoluta (para os outros, não para mim), Marisa Monte. Depois, cansado da vida, foi passear em Nova Iorque e, por acaso, começou a trabalhar no Super Manhattan Connection, ao lado de ninguém menos que Paulo Francis. Enfim, Nelsinho, como é conhecido dos íntimos (dos quais infelizmente não faço parte), lançou, há pouco mais de 2 semanas, Força Estranha. São algumas histórias reunidas, contadas pelo narrador, com eventos de toda a sorte em Brasília, Rio, Salvador, Boipeba (a ilhota paradisíaca colada em Morro de São Paulo), Buenos Aires e inúmeros outros lugares. Provavelmente, (digo isso pois não li, ainda, nenhuma resenha sobre) são histórias vividas pelo próprio Nelson Motta. Quem se emocionou muito e rezou para não chegar ao fim das páginas de Noites Tropicais, com certeza gostará desse lançamento.
Se você por acaso não gostar do dito cujo, aproveite essa época de festas e pelo menos dê de presente de natal para seus amigos e familiares de ótimo gosto.
Curtindo um som e sentindo a brisa
Momento de total easy listening, com canções de Jack Johnson que, honestamente, não sei por que deixei de ouvir há alguns meses. O lançamento “En Concert” é absolutamente fantástico. Mesmo aqueles que não curtem praia, por exemplo, podem ouvir o som e sentir a brisa suave do mar batendo sobre o rosto, aquele sol delicioso da manhã torrando as maçãs do rosto. Aos que curtem areia, sol e mar, é colocar no repeat do aparelho de som do carro e procurar a praia mais próxima.
Além de Johnson, descobri uma raridade preciosa, um som australiano chamado The Beautiful Girls. Coisa de primeira qualidade. Seguem um estilo muito próximo ao de Johnson. A canção “La mar” deveria ser a música do nosso próximo verão. Se não for, será, ao menos, do meu verão particular.
Julian Casablancas lança solo Phrazes for the Young
Aos que sentem saudades do Strokes, podem muito bem se virar, por ora, com o lançamento de Julian Casablancas: Phrazes for the Young. É um disco que segue a fórmula vitoriosa do Strokes. A voz de Julian está lá, intacta, a bateria ao estilo Fabrizio Moretti também segue na mesma. A tradicional guitarrinha nervosa também marca presença. “Quer dizer, então, que o som é praticamente o mesmo do finado Strokes”, vocês podem se questionar.
Pois sim, é muito parecido. Muito mesmo. Salvo um ou outro momento do disco em que há uma presença forte de sintetizadores no pior estilo anos 80 (que me desagradam profundamente), além de solos circulares de guitarra, trata-se, sim, de Strokes puro.
Assistindo ao vídeo de Reinaldo Azevedo no Jô, sinceramente, e do fundo do meu coração, acredito que não demoraremos muito tempo para voltarmos aos áureos tempos em que as pessoas sentiam enorme prazer em ouvir atentamente um pensamento lógico e bem estruturado. voltaremos, seguramente, às discussões bem fundamentadas e não haverá nenhum tipo de cerceamento ao pensamento não consensual, afinal, somos humanos e, em muitos casos, raciocinamos de maneira muito diferente. Talvez, essa seja a grande graça da complexa raça humana.
O que temos hoje, no país, além de Lula? Claro, sua turma e suas idiossincrasias: A sutileza de Marco Aurélio Garcia, o gigantismo moral de Celso Amorim, o ministro da luz apagada, Edson Lobão. Temos, também, o ministro responsável pela "educação", Fernando Haddad. Não esqueçamos de Orlando Silva, Carlos Lupi e, o mais simbólico de todos, Carlos Minc, o menino do Rio.
E pensar que, há menos de 10 anos, tínhamos Lampreia, David Zylbersztajn, Gustavo Franco, Pedro Malan, Gustavo Loyola, Armínio Fraga, Pedro Parente, Celso Lafer, Paulo Renato Souza, José Serra, Clóvis Carvalho, Bresser Pereira, Raul Jungmann. Esses são apenas os que me recordo de cabeça. São, como vocês podem notar, uma verdadeira constelação, cada qual em sua área de atuação.
Tempos duríssimos, meus caros. Duríssimos. Mas passarão, como tudo nessa vida. Alguém duvida?
Abaixo, segue a ótima entrevista de Reinaldo Azevedo, via Youtube, em 3 partes.
Caderno de anotações, elucubrações, memórias e rabiscos (Parte VII)
Geisy Arruda e as cariocas
Sei que não é dos melhores parâmetros, mas essa história toda deflagrada na Uniban, na qual a estudante Geisy Arruda, despertou em mim uma profunda admiração pelas cariocas. Por que disso tudo? Onde já se viu fazer qualquer tipo de discriminação pelo tamanho da roupa da pessoa?
Ora, amigos, raciocinem comigo, há algum problema em ir à Universidade de microvestido? Sinceramente, há? Talvez sim, talvez não. Claro, dependendo da formação familiar, soará um tanto estranho esse tipo de atitude, mas, nesse caso, trata-se de uma pessoa simples, rasteira, que não consegue nem mesmo se expressar corretamente. Troca erres e por esses a todo momento. Para ela, mãe, pai, irmãos, sair de casa de minissaia é algo absolutamente normal.
Obviamente, aqui não vai nenhuma crítica ao seu ato, mesmo porque, para os homens em geral, exceto os de São Bernardo, onde fica a Uniban, é uma dádiva dos deuses poder ver uma mulher bonita com roupas curtas e extravagantes. Chama a atenção e vale aquela máxima antiquíssima: Tudo que é bonito é para se mostrar. Nesse caso, também surge a velha questão da subjetividade. Ela é bonita? É gostosa? Para alguns sim, e para outros não. A mim, honestamente, não agrada. O estilo, o jeito, a forma. Mas, ela deveria ter todo o direito do mundo de andar da maneira que se sente melhor. Não acham?
Dentro dessa seara específica, de vestimentas, é bom observar o comportamento da mulher carioca, que, de maneira geral, se veste como se sente melhor. Se é bela e cheia de curvas, abusa de roupas curtas, tops e vestes coloridas, para combinar com a paisagem estonteante da capital fluminense. Há, também, as mais recatadas, como em todos os lugares. Como passei um bom tempo andando por terras cariocas, tanto capital quanto litoral (Cabo Frio, Arraial, Rio das Ostras e Búzios), posso assegurar que a mulher carioca sabe se vestir muito bem, e em todas as ocasiões. Na praia, então, é o grande festival dos corpos bonitos em profusão que, somados aos temperos naturais como o sol, o mar, a areia finíssima e alva, conferem ao Rio de Janeiro a alcunha de capital da beleza e da liberdade dentro desse nosso Brasilsão.
Se nos orgulhamos tanto de sermos um país de clima quente, tropical, de pessoas nobres e cordiais, é chegada a hora de mirarmos o exemplo carioca, para que nunca mais aconteça uma cena dantesca e surreal como a ocorrida dentro da Uniban. Ou, daqui a pouco, poderemos bater orgulhosos no peito para nos orgulharmos de ter um aspecto cultural retrógrado como o do Irã ou do Iraque.
É isso mesmo que vocês querem?
Fernanda Young e a Playboy da vergonha alheia
Pois é, Fernanda Young, a irritadíssima, dia e noite, posou para a revista masculina de maior circulação no Brasil. Sou da opinião de que qualquer um pode fazer qualquer coisa da própria vida, já que isso torna todos iguais e todo aquele blá blá blá politicamente correto. Penso assim pois, no meu caso, faço justamente, e unicamente, as coisas que almejo. O caso é que Fernandinha Young, a estrela maior no quesito "bons roteiros para televisão" (isso é uma ironia, amigos), foi protagonista de uma das maiores vergonhas alheias da história da Playboy, sendo superada apenas pela rainha Hortência. Por que digo isso? Porque Fernanda é a rainha do achismo. Acha que tem atitude, acha que interessante, acha que é inteligente e acha mais uma porção de coisas. Bom, eu também acho uma porção de coisas, para ser muito sincero, mas não saí em nenhuma revista mostrando as minhas partes íntimas. Isso não é puritanismo de minha parte, vejam bem, mas seria conveniente que apenas pessoas que se adequam ao perfil "peladístico" da publicação se propusessem a posar. Os que ainda não viram as fotos, procurem ver para partilhar do sentimento. Acho que quem citou as coisas mais acertadas sobre o ensaio foi Danilo Gentili, do CQC, via Twitter. Leiam lá.
Quanto a patrocinar a revista de Fernanda, não é o caso. Mesmo. Coloquem as palavrinhas mágicas "Playboy Fernanda Young Baixar", no Google, e divirtam-se.
O mundo é dos feios, como diria Xico Sá
A filial do Orkut para gente bonita e gostosa, Beautiful People, chegou ao Brasil há pouco mais de duas semanas e já começou errando. Me candidatei e fui considerado top do top do lindo. Realmente, o negócio não funciona direito. Mas, tudo bem, beleza é subjetiva, não é mesmo, amigos?
Cinema argentino continua sendo o melhor do mundo
Conforme conversei com uma amiga há alguns dias, o cinema argentino deve permanecer como o melhor do mundo por muitos e muitos anos. Depois de conhecer trabalhos sensacionais de cineastas como Lucrecia Martel, Juan Jose Campanella, Pablo Trapero, Marcelo Piñeyro, Fabian Belinski e, o melhor, com sua temática judaica, Daniel Burman, segui aos cinemas sem muita expectativa para assistir à comédia Um namorado para a minha esposa. Pois, fiquei surpreso de sair do cinema, em pleno domingo à noite, com um belo sorriso estampado no rosto. Uma comédia inteligente, bem escrita, bem montada e com um elenco afinadíssimo. Assistam! E vejam também o já citado 500 dias com ela.
Caderno de anotações, elucubrações, memórias e rabiscos (Parte VI)
Jovens, uni-vos (começando brega esse texto)
Pois bem, posso dizer e assegurá-los que, durante essa semana, tive duas demonstrações da força do jovem. Acho graça, honestamente, enquanto essas palavras saem da minha cabeça e começam a ser digitadas nessa folha de papel digital. Tudo isso pois nunca pensei que fosse envelhecer ao ponto de colocar “o jovem”, “a juventude”, em algum texto e não me inserir. Pois é, trata-se do passar dos anos e, como bem diz mestre Mário Viana: A vida acontecendo em pleno gerúndio.
Tenho um amigo novo, novíssimo, no banco e pude conversar com ele sobre sua escolha de carreira e mercado de trabalho. Optou por uma carreira de Desenho Industrial e toca o curso com muita dedicação e afinco. Gosto disso. Quero dizer: gosto de pessoas que tomam rumos e decisões, acertadas ou não, baseadas muito mais no coração e na emoção do que propriamente na razão. Isso, talvez sim, talvez não, mostre a força da geração que vem por aí. Sei que a minha, salvo algumas raríssimas exceções, possui um gosto pelo novo, pela novidade, por tudo que está para surgir. Há uma febre. Em muitos casos, isso é desmedido e a falta de foco atrapalha muito, mas, melhor assim do que a apatia das pessoas nascidas nas duas décadas anteriores.
Esse garoto, rapaz, do qual eu falava, começou sua carreira na área por, entre outras coisas, influência minha. Sei disso, e talvez nem mesmo ele saiba. É aquele tipo de coisa que fazemos e sentimos sem saber ao certo como explicar. Conversamos longamente sobre seus trabalhos, sobre suas dúvidas e afins. A cabeça de quem é mais novo é recheada de encontros e desencontros. Isso, a meu ver, é o grande barato dessa idade, do começo dos 20 anos. As decisões de vida, de carreira, de rumo, tudo. Ele está no caminho certo, mesmo sem saber. Fiquei feliz com sua evolução e, acima de tudo, com seu amor pela carreira. Pode ser que não se torne rico, mas sempre será feliz, pois fez a escolha certa, adequada ao que o coração mandava. O que é melhor? Escolher o caminho financeiro, por mais tristeza e dor que este possa trazer, ou o caminho da realização? Isso só o tempo poderá dizer e ensinar.
Ontem, tive o prazer de dividir momentos junto a um primo, novo também, em começo de escolhas de carreira. Cursa arquitetura e está contentíssimo com tudo o que vê. O novo, como sabemos, é sempre interessante, ainda mais quando existe algo chamado amor. Rodamos São Paulo, algumas regiões. Caminhamos pela Avenida Paulista, comentamos sobre as obras de Rino Levi, sobre a grandiosidade do Conjunto Nacional, sobre a sobriedade da obra da Fiesp e sobre o estilo inconfundível de Paulo Mendes da Rocha. Ícones máximos para alguém como ele, que fez a escolha correta e se espelha nos grandes mestres. Não há segredo algum. Amor e interesse. Pré-almoço com visita à Bienal Internacional de Arquitetura que, apesar de estar muito pobre esse ano no quesito conteúdo, despertou sua enorme vontade de expor opiniões, sentimentos e pontos de vista sobre o que via. Observar os olhos de satisfação de meu primo foi, nos últimos tempos, das melhores sensações que tive. Sempre gostei, durante o início de minha carreira, de encontrar pessoas para compartilhar esses sentimentos. Encontrei poucos e preciosos, mas que fizeram toda a diferença. Talvez soframos de carência intelectual, nesse nosso mundão tão raso. Digressão desfeita, pós-almoço fomos visitar o paraíso construído por Lina Bo Bardi: Sesc Pompéia.
Cinema
Semana também recheada de descobertas cinematográficas. Algumas decepções enormes no meio desse caminho, mas também algumas películas muito interessantes. Assistir à esquizofrenia de Jamie Foxx em O Solista não foi das sensações mais agradáveis que tive em vida. Quero dizer, o filme tenta ser bom, se esforça, os atores tentam de tudo, mas no final o resultado é muito insatisfatório. O filme carece de ritmo, carece de alma. Tudo está lá, mas ao mesmo tempo não está. A película se arrasta pela tela durante longuíssimas duas horas. Eu, pessoalmente, não recomendo que ninguém vá assistir.
Quanto ao doce e leve 500 dias com ela, é só prazer. O filme é daquele tipo que engana quem procura por algum filme naqueles caderninhos com a programação dos cinemas da cidade. Isso, porque tem todo o cheiro e jeito de comédia romântica. De fato o é, mas com um ritmo e uma ironia deliciosos. Consegue inverter todos os clichês da menina romântica que procura um cara e sofre dia após dia com inúmeras decepções amorosas. No caso, Joseph Gordon-Levitt, de Third Rock from de Sun, faz o papel do menino romântico, cheio de sonhos e desejos. Tom, Gordon-Levitt, conhece Summer, interpretada pela ótima Zooey Deschanel e começa a viver as agruras de amá-la intensamente sem ter certeza da reciprocidade de seu sentimento. Tudo se desenrola durante os tais 500 dias do título. Dos que estão em cartaz, possivelmente é o melhor. Ou estou sendo muito tendencioso. Tanto faz.
Ontem, voltando aos blockbusters, pude conferir Código de Conduta, que conta com Jamie Foxx e com Gerard Butler, o novo Russell Crowe dos cinemas. Enfim, não é daqueles filmes que nos faz pensar muito, mas asseguro que cumpre bem sua proposta de entreter o público. Sim, trata-se de um filme bobinho, mas serve muitíssimo bem para aqueles momentos em que não há muito ânimo e vontade de pensar algo mais profundo.
Outra das delícias do cinema em cartaz está a mezzo comédia mezzo drama À procura de Eric. A história se desenrola na vida de Eric Bishop, um carteiro fodido e, literalmente, mal pago. A vida de Eric não tem graça nenhuma há mais ou menos 30 anos, quando se separou de sua esposa, grávida de sua filha. Nos 30 anos que se passam, a única alegria de Eric é ver seu homônimo, o jogador Eric Cantona, do Manchester United, fazer belos passes e gols, ora ao vivo, no estádio de Manchester, ora pela televisão, mas sempre em companhia dos bravos e fiéis amigos dos Correios. Em determinado momento, no auge de crise existencial de Eric Carteiro, Eric Cantona dá as caras e passa a aconselhá-lo aleatoriamente sobre tudo e todas as situações. Um filme, confesso, bastante simples, mas incrivelmente delicioso de ser assistido. Assistam! É garantido. Claro, trata-se de mais um Ken Loach.
Literatura
Mais uma coisa incrível que tem acontecido são as páginas otimamente escritas por Erasmo Carlos em seu Minha fama de mau. De minhas últimas leituras, possivelmente é a mais interessante. Erasmo possui um coração enorme, cheio de vida, e as histórias sobre a Jovem Guarda, tudo o que aconteceu durante a vida do mestre, e sua amizade espiritual com Roberto Carlos, são de arrancar sorrisos e lágrimas em questão de pouquíssimos parágrafos. Eu recomendo fortemente a leitura!
Música
De todos os últimos sons baixados ou comprados, o destaque absoluto segue sendo Duper Sessions de Sondre Lerche. Pelo que li por aí, o cara não foi divulgado ainda por aqui, e pouquíssimas pessoas o conhecem. Já cheguei a colocar um vídeo aqui de Sondre, e espero que os amigos e leitores possam compartilhar comigo desse gosto. Vos garanto que é material de primeiríssima qualidade. É jazz, mas ao mesmo tempo é pop. Difícil definir. Se tivesse que compará-lo a alguém que já está na estrada, o compararia ao talentosíssimo pianista Jamie Cullum.
Próximos capítulos
Assistir ao recém baixado Whatever Works, do mestre Woody Allen. Gostaria, confesso, de esperar sua chegada aos cinemas, mas esperar por mais algumas semanas não está entre meus planos. Façamos assim: se for lançado na sexta-feira que vem, dia 20/11, posso esperar. Caso contrário, assistirei. Ouviram, distribuidoras de filmes?
Um documentário cheio de boas intenções, mas bastante meia-boca - Alô, Alô, Terezinha. Uma comédia romântica diferente das convencionais, com uma trilha sonora espetacular - 500 dias com ela. Mais um ótimo Ken Loach - À procura de Eric. Um livro - Minha fama de mau, de Erasmo Carlos. Um CD para largar no repeat -Trilha sonora de Lords of Dogtown. Uma nova paixão - Ilustração. Uma exposição incompleta de um artista completo - Mario Cravo Neto, no Instituto Tomie Ohtake. Uma exposição que não vi em decorrência da fila - Os Gêmeos, na FAAP. Um DVD para ter em casa - Um homem de moral, sobre a obra de Paulo Vanzolini. Um restaurante agradável de pratos incríveis -Bracia Parrilla.
Depois de um período sombrio e triste, ou nem tanto, procurando incessantemente por Let's get lost, o famoso documentário de Bruce Weber sobre Chet Baker, mestre supremo do trompete, consegui, enfim, encontrar nos mares internéticos o arquivo disponível para download.
Sei que muitos procuram e não encontram, aqui e acolá, esse precioso filme. Então, por ser amigo dos amigos, simpático e bacana, disponibilizo, abaixo, o link para a lista de links que deverão conduzi-lo por uma viagem sensacional pela vida de Chet Baker.
Um vídeo caseiro vendido como documentário, mas nem por isso menos interessante - Titãs, a vida até parece uma festa. Um filme regular, com bons atores e trilha arrebatadora - Vigaristas. Um livro - O imitador de vozes, de Thomas Bernhard.
Pois então, hoje, depois do meu horário de almoço, surgiu uma vontade incrível, imensa, arrebatadora de produzir alguma coisa. Um mural, digamos assim, para esse espaço. Para o, como chamo e vocês também, Quilombo, o blog. Sei que o nome muitas vezes acaba trazendo gente aqui, via Google e outros buscadores, que não tem nada a ver com essa história. Ora são pessoas buscando o tal filme Quilombo, ora são pessoas procurando entender como eram, antigamente, e como estavam constituídos, os Quilombos. Mas, hein? Não dou a mínima pelota para isso, confesso, desavergonhadamente, se vocês querem saber bem. A escolha foi absolutamente aleatória. Escolhi “quilombo” simplesmente pela sonoridade. Quilombo. Quilombo. Qui, lom, bo. Soa bem aos ouvidos. Pelo menos aos meus. Bom, digressões à parte, e excesso de explicações as well, voltando ao meu momento pós-almoço. Surgiu, sem mais nem menos, essa vontade de produzir alguma coisa. Uma coisa qualquer. Nesse mesmo momento, ao folhear a versão digital da Folha e ver a foto, na coluna de Érika Palomino, de Mr. Chico Buarque, em um evento relacionado ao livro Leite Derramado, sua última obra, tive uma repentina inspiração (sim, sou fã do cara, mas nada que se possa dizer “Puxa, que fã mais ardoroso!”). O detalhe que mais me chamou a atenção na foto foi a quantidade incrível de linhas de expressão presentes em seu rosto. Sulcos profundos, ranhuras, traços e detalhes que parecem talhados em madeira. Engraçado, envelhecer é isso mesmo, não? Acumular as marcas do que se passa conosco e ao redor. Somos produto talhado, dia a dia, pela vida. Enfim, peguei a foto, fiz algumas colagens daqui e dali, resgatei alguns materiais do passado, que jaziam tristes em uma pasta qualqur, e montei esse “Splash”. Sim, caríssimos, o nome desse muralzinho aqui em cima é “Splash”. Nome invocado, né? Enfim, produzi isso em meu horário de almoço. Se está bom, ou não, vocês me dirão. Podem me auxiliar a entender se a inspiração foi boa ou não? Se vi a luz e não soube?
Vulgo Qinho e os Caras - Vulgo Qinho e os Caras. Profiterólis - Pare e siga. Vitor Ramil - Ramilonga. Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta - Frascos Comprimidos Compressas. Ed Cortês - Primeiro Movimento. Wado - Atlântico Negro.
Caderno de anotações, elucubrações, memórias e rabiscos (Parte V)
Fiquei me questionando, hoje pela manhã, se é normal mesmo estar de saco cheio em plena segunda-feira! Uau, a vida é muito engraçada mesmo. Ou sem graça. Dá na mesma, segundoa filosofia. O ser e o não ser, o estar e não estar, é tudo a mesmíssima coisa. Loucura isso, não? Numa quinta-feira, inicia-se a graça e a alegria. Sexta-feira é quase o nirvana na mente e no coração. A aproximação inevitável da segunda-feira começa a amargar a consciência. Será que isso é algo normal na cabeça de todos os seres humanos? Não que isso possa, de alguma forma, me deixar mais confortável perante a realidade, mas, é sempre bom descobrir que todos estamos na mesma barca. Rumo a que lugar eu não sei. Mas, todos ali, juntinhos, sentindo o CCzinho alheio. O azedinho. A contragosto, mas sentindo.
Hoje, pelo que vi nas versões eletrônicas dos jornais (que mão na roda não precisar mais comprar Folha, Estadão e Veja), haverá um filme com Gael Garcia Bernal e Michelle Williams (que está ficando velha, feito Bridgitte Bardot, da canção de Tom Zé). Se bem me lembro, o nome do filme é: Corações em Conflito. Será que é bom? Não sei. Um ou outro jornal, ou revista o indicou como “interessante”. Talvez seja. Talvez não. Sabe-se lá. Se der tempo, e o ânimo voltar durante esse dia, claro, de repente, assim, como quem não quer nada, ou melhor, como quem quer assistir a um filminho, conferirei a tal película. Se for boa, comento por aqui. Para quem quiser, segue o serviço: Cine TAM, sala Paris, às 21h30. Por tratar-se de uma das salas de cinema do Shopping Morumbi, creio que não haverá muita gente chata, já que a localização geográfica do referido prejudica muito a locomoção dos amantes da 7ª arte, que comparecem aos borbotões nessa Mostra de Cinema. Se a sessão acabar próximo à meia-noite, tanto melhor (para mim, note-se). Aos que moram longe: LOSE. Os que moram perto, just like me, one little word: WIN.
Uma exposição que me parece boa é a de Robert Doisneau. Trata da produção encomendada de Doisneau, das décadas de 30 e 40, a pedido da Montadora Renault. Vi algumas fotos do catálogo e gostei bastante. A quem interessar possa, a exposição está rolando no Centro Cultural da Fiesp, na Avenida Paulista, no coração do Brasil (dá-lhe Melodia).
Já ia me esquecendo de falar sobre o show de Luiz Melodia, que rolou no sábado à noite, no Sesc Vila Mariana. O formato do show é parecido com um CD que Luiz gravou há uns bons 10 anos. Apenas o violão de Renato Piau (que toca pra cacete!), fiel escudeiro de Melodia, e a percussão impressionante de Nana Vasconcelos. Confesso que percussão é algo que não me atrai muito. Acho, em alguns casos, uma barulheira desnecessária, que só atrapalha arranjos e linhas melódicas. Talvez eu tenha bebido nas fontes erradas. É uma possibilidade. No caso de Naná, há uma preocupação quase autista em apenas complementar as canções, a voz e o violão. E isso, meus amigos, faz toda a diferença. Não à toa, Nana é considerado o maior percussionista brasileiro. Em relação ao show, não há muito o que dizer. Basta comentar que a lotação estava esgotada nos três shows (sexta a domingo), e que todos cantaram quase todas as canções. Melodia segue em excelente forma e torna-se, ao seu modo, o novo João Gilberto. “Que estranho esse comentário”, podem pensar vocês, caros leitores. Explico-me: Melodia possui um repertório bastante limitado, apesar de contar com estrondosos sucessos. Apesar disso, a cada dia, busca uma nova leitura das canções.
Outro fato que ia me esquecendo de comentar foi o show, que quase passou desapercebido, de Guinga. Não sei muita ou pouca gente conhece o trabalho de Guinga. Cheguei a resenhar, se não me engano, Noturno Copacabana. Ou foi Cine Baronesa. Hummm, deixemos pra lá esse resgate tosco do passado. Enfim, seu trabalho no violão é impressionante. Ouvi poucos violonistas até hoje, mas, desses, Guinga com certeza figura entre os melhores. Imaginem vocês uma prateleira com nomes do calibre de Paulinho Nogueira, Rafael Rabello, Yamandú Costa e Baden Powell. Certamente, poderíamos acrescentar o nome do músico carioca a esse seleto grupo. O show foi chiquitito, pero cumplidor. Apenas Guinga ao violão e voz, em uma ou duas músicas, um clarinetista, cujo nome me foge à memória (Paulo Sérgio Santos, devidament googlado), e o lendário baterista Oscar Bolão (e somente descobri que o cara era lendário nessa apresentação. Toca uma bateria para ninguém nesse mundo botar defeito!). Enfim, o show foi basicamente instrumental e serviu para apresentar algumas canções do repertório do novo CD e DVD de Guinga. Ótima noite de quinta-feira, mas com pouquíssimas pessoas na platéia.
Subvertendo completamente essa história de tempo-espaço, deixando de lado essa maneira horrenda cartesiana de ver o mundo, voltamos altivos e saltitantes para a domingueira, vulgo “ontem”. Então, domingo foi dia de ver uma exposição curiosa no Tomie Ohtake. Quer dizer, ver não seria bem o termo. “Entender” seria a melhor palavra na situação em que me encontrei por lá. Paraísos Possíveis, de Dias e Redwig, trata, como o próprio nome diz, de lugares que são paradisíacos. Porém, esse paraíso representa a forma como cada um enxerga. Por exemplo, eu projetaria o paraíso com poucas pessoas e cenários idílicos. Outros preferem o caos, e veriam o paraíso dessa forma. Caótico e desordenado. Questão de visão. Essa parte da exposição, foi boa e entendível, mas nada que se possa dizer “puxa, que incrível!”. Na outra parte, há uma série de maletas e vídeos associados. Dessa, o entendimento foi nulo. E, portanto, considerei, logo de cara, a exposição, como um todo, uma merda. A outra exposição presente no Tomie era Cartazes de Chaumont, que foi ótima. Não há muito o quê comentar em relação a essa, já que são apenas cartazes, datados ano após ano, com motivos distintos para o mesmo festival.
Não falando do domingo, mas de algum dia qualquer, comprei, após folhear indiscriminadamente, O imitador de Vozes, de Thomas Bernhard. Leitura incrível. Compre você também, mas apenas se gostar de um tipo de literatura que lhe encha de pessimismo em doses cavalares. São historietas curtas de uma página, no máximo uma e meia, que falam sobre distúrbios diversos, maldades, ódio, raiva, rancor. Não, não quero que vocês, queridos leitores, passem a desgostar da obra de Bernhard sem ao menos terem lido algo. Imaginem um texto com trechos que se repetem à exaustão, mas sempre, ao final, com saídas magistrais. Há, além do já citado pessimismo, um jeitão irônico de escrever que pouquíssimos autores conseguiram realizar em toda a história da literatura no mundo.
Sei que novembro ainda nem chegou, mas, obviamente, é hora de começar os planos de shows, peças, livros, filmes, discos, expos, passeios e afins. Não quero aqui fazer um clipping babaca com esses eventos, mas sim uma coisa descontraída e interessante. Então, vamos lá:
• Escuta Zé Mané - Peréio estará, até o final de novembro, no teatro do Sesc Paulista para encenar, junto a João Velho, ator e filho do próprio, a peça Escuta Zé Mane, de autoria de Wilhelm Reich. Tem Peréio, não é mesmo? Então eu vou, porra!
• MPBlack – A direção desse show é de Bocato, trombonista dos melhores. As cantoras que fazem parte do projeto são: Negra Li, Lady Zu e Nina Becker. Acho que o evento promete. Primeiro, por ser dirigido por Bocato, que manja demais de Black Music. Ou acho que manja. Em segundo, pela participação da Negra e da Nina. Não sei quem é Lady Zu. Se fosse ruim, não teriam chamado. Acho. Será que vou?
• André Mehmari – Quando milhares de pessoas em jornais e revistas começam a incensar alguma personalidade qualquer, seja do mundo da música, seja do mundo dos mortais, tendo a colocar não apenas um pé atrás, como também o outro. Pode ser um preconceito idiota, mas tendo a achar que conheço mais de música do que quem passa o dia todo enfurnado dentro de um escritório de um jornal qualquer. Mas, nesse caso, após ter visto o repertório do show, estou abrindo uma exceção e irei conferi-lo. Mehmari será acompanhado de Violoncelo, Contrabaixo acústico e viola caipira.
• Danilo Moraes – Depois de um começo promissor de carreira, Danilo, que é filho do aborrecido Wandi Doratiotto, que apresenta o Bem Brasil, da TV Cultura, sumiu completamente do mapa. Quer dizer, não sumiu! Danilo participou de uma edição de festival musical da Cultura, alguns poucos anos atrás, e, por ter ganho de Fabiana Cozza (a queridinha da Vila Madalena e adjacências, que não entendo como pode arrastar tantas multidões apaixonadas), quase fora linchado na porta do Sesc Pompeia, onde se realizava o referido evento. Os críticos, à época, diziam que Danilo havia vencido somente por ser filho de Wandi, que trabalha na TV Cultura, e todo aquele blá blá blá que só os perdedores conseguem ter. Claro, Danilo ousou tocar MPB para um público predominantemente rasteiro, preso a tradições idiotizadas, no qual o samba é tido como única manifestação legítima, sem qualquer tipo de respingo de outras culturas. Como eu disse, o tipo de papo dos maus perdedores. Enfim, Danilo tocará no Sesc Pinheiros e será possível resgatar sua curta, porém profícua, carreira e obra.
• Trilhando, com Walter Lima Jr. – Sei que é um evento que acontece há anos no Sesc Pompéia, mas só fiquei sabendo de sua existência agora, em 2009. Pude conferir a edição do Trilhando com Sandra Werneck (Amores possíveis e Cazuza), e foi de lascar. Sensacional. Emocionante até mesmo para o mais bruto dos brutos. Creio que o evento com Walter Lima Jr. será no mesmo estilo, já que Waltinho, como é conhecido no meio artístico (ou não. Isso é apenas um chute), dirigiu longas do naipe de “Os Desafinados” e “A Ostra e o Vento”. Aposto em uma trilha bem bossa-novista, percorrendo ruas e vielas da memória da MPB brasileira. Os convidados da vez, para encher nossos ouvidos de acordes dissonantes, ou não, são Leila Pinheiro, ao piano, e Péricles Cavalcanti, que apesar de ter esse nome de pagodeiro, é MPbista, na guitarra.
• Os Gêmeos – Começa a rolar agora, e se estende até dezembro, a exposição com inúmeras obras cheias de serezinhos amarelos dos irmãos Pandolfo em muros, telas, painéis, caixas e afins, no Museu de Arte da FAAP. Na faixa.
Eu sei que "não se deve colocar mulher num pedestal", por favor, né, considerando-se os defeitos delas, que não sabem somar nem dividir, que não entendem que exceções não invalidam regras, que votam mal, que não gostam de ficção científica, e que mesmo as mais bonitas têm lá os seus dias de pele gordurosa, espinha, bafo. Eu sei, mas qual é a graça de ter uma mulher bonita, ou até só de chegar perto de uma mulher bonita, se não for para colocá-la no pedestal muito de vez em quando? Se não for para sentir de vez em quando um pouco do sentimento de veneração? Você acha mesmo que não existe nada de sagrado numa mulher muito bonita? (Isso tudo admitindo que os homens mais espetacularmente fracassados com mulheres que já vi na vida são os que não conseguem desligar o botão de veneração nunca, entrando num looping de rapapés asqueroso e infinito, melífluo e abichornado. Mas mesmo assim.)
Só sei que, se a minha mão esquerda entrasse uns segundos por debaixo da saia de Scarlett Johansson, eu, que também acho que "não se deve colocar mulher num pedestal", consideraria para sempre a minha mão sagrada. Ou qual a palavra - numinosa? Olharia para a minha mão com pasmo - como se fosse a mão de Arthur que tocou em Excalibur, ou a de Jacó que lutou com o anjo. Mostraria a minha mão para os netos como se lhes mostrasse a cruz do Calvário. "Ó, sente o cheiro, nunca mais lavei". "Ai vô, pára". Exigiria que as pessoas abrissem caminho para mim no correio, no supermercado: "Saiam da frente que eu pus a mão entre as pernas da Scarlett Johansson". E acharia perfeitamente natural, de fato esperaria isso o tempo todo, que uma pessoa que estivesse conversando comigo durante uns minutos, vendo a minha mão esquerda casualmente repousada e semifechada em cima da mesa, de repente se lembrasse onde aquela mão tinha estado, e sentisse um arrepio e perdesse o fio dos pensamentos, e não conseguisse conversar mais nada, e não tirasse mais os olhos da minha mão de velhinho.
A caminho de Herzeg Novi, em Montenegro, passamos em frente a uma popularíssima livraria. Ficamos aterrorizados com um atropelamente ocorrido, há pouco, em frente à Livraria. O tal atropelamento, que nos aterrorizou, e que ocorreu em frente à livraria, estraçalhou completamente o corpo de uma senhora de 75 anos. Nos jornais, ficamos sabendo tratar-se de uma nobre senhora, portadora de deficiência mental, que havia perdido todo seu patrimônio em apostas de cavalos, todos péssimos por sinal, que costumava, aos sábados, passear desavisadamente na rua em frente à livraria. Apesar de todo o ocorrido em frente à livraria, e que acometeu de maneira fatal a senhora, estamos muito felizes com a reserva, para o natal, do livro "Meus prêmios", de Thomas Bernhard, que ainda não achamos editado no Brasil.
Caderno de anotações, elucubrações, memórias e rabiscos (Parte IV)
João Pereira Coutinho, brilhante como sempre, no artigo de hoje da pensata, da Folha de S. Paulo, trata sobre um assunto que não sai das rodas de conversas sobre a internet: o tal vídeo polêmico em que a atriz Maitê Proença teoricamente ridiculariza Portugal. Abaixo, segue o vídeo que circula na terra do fado, retransmitido pela Televisão portuguesa "Sic":
Comento
Se nunca tive nenhum tipo de sentimento por Maitê, passei a ter. Nem tanto pelas piadas, extremamente sem graça, mas pela sua atitude. Maitê encontrava-se ali, em terras portuguesas e teceu comentários jocosos sobre o lugar. Ponto. Assim como americanos fazem quando pisam por aqui. Ou como marroquinos fazem quando pisam na Inglaterra. Enfim, posso até estar equivocado, mas não há nada de errado em fazer uma piada ou outra sobre um país, seu povo e sua cultura. Que mal há nisso? Honestamente, não entendi de onde veio tamanho sentimentalismo por parte de nossos amigos portugueses. É notório que há piadas aqui e acolá sobre brasileiros e portugueses. É um bullying saudável. É preciso ter um mínimo de senso de humor. É preciso, acima disso tudo, rir de si e rir da vida. Carregamos em nosso sangue nosso país, nossa genética, nossos valores, costumes, religião, raça, credo e afins, mas criar qualquer tipo de tabu sobre esses temas é uma idiotice imensa.
Os estereótipos, obviamente, são irresistíveis. Quem nunca fez qualquer comentário sobre um americano e o pintou com o estigmático barrigão à beira da churrasqueira elétrica, naquele jardim fétido e bem aparado, aquela cara patética, apatetada e, em frente à casa, uma ridícula bandeira estadunidense. Ou, ainda, nunca criou em uma piada, ou num comentario jocoso, o inglês como um bêbado insignificante, inveterado, com sua cara e bochechas rosadas. É mais do que natural. É, a meu ver, humano. Extremamente humano. Somos assim. E ponto.
Muitos se sentem envergonhados de fazer o comentário. Mas, deixar de fazê-lo não quer dizer que não se tenha vontade. Convenhamos: ser honesto e sincero pode ferir, mas é muito mais saudável. Alguns não acreditam nisso, mas a piada sempre carrega uma verdade consigo. Em alguns casos, trata-se de uma crítica indireta, ao melhor estilo "vamos rir disso para não chorar".
Há, tristemente, aqui e alhures, uma caça às bruxas. Não as tradicionais, dos contos, de Eastweek, mas sim ao "politicamente incorreto". Querem transformar o mundo num grande espaço sem piada ou preconceito. É uma repetição nesse espaço, tecer comentário sobre esse tema, já que já o fiz e talvez até mesmo tenha esgotado o assunto. Chamemos isso de revisionismo. Não se pode mais, em hipótese alguma, fazer troça de alguma deficiência. Não se pode esgotar piada sobre credo, raça, religião ou qualquer outra coisa. Não se pode ao menos rir de si mesmo sem que alguém não desfira o batido, "Ah, não fale uma coisa desses, pois é até pecado". Querem transformar o mundo em uma coisa qualquer insuportável, inclassificável, onde até mesmo os pensamentos fora do padrão serão condenados.
15h48
Depois de um dia de saco na lua, uma terça-feira insuportavelmente infeliz e tristonha, me vi hoje feliz, sorrindo e contente inclusive com meu trabalho. Coisa para ser comemorada. Ah, mas isso só pode mesmo ser obra desse sol de verão que baixou em terras paulistas nessa tarde intensa. Quente. Calorenta, eu diria. Muitos decotes, pele à mostra, calças apertadas, abanadores, suores, calores, sorrisos estampados nos rostos juvenis (e balzaquianos aussi). Muito mais gente contente do que triste. Para uma cidade como São Paulo, já é um avanço extremado. Enfim, o verão logo chegará e a alegria reinará. Olha, até parece um haicai: O verão logo chegará e a alegria reinará.
Quer dizer, ainda é meio de tarde e tudo isso pode mudar até as seis horas. Espero que não. Por que perder toda essa poesia bonita, cheirando a Tom Jobim e abertura de novela das oito? Por quê?