26.11.09
Caderno de anotações, elucubrações, memórias e rabiscos (Parte VIII)
É bom poder trabalhar dessa forma aqui no Quilombo. Quando há conteúdo suficiente e, também, a possibilidade e a vontade de dizer coisas, corro pra cá e atualizo os últimos acontecimentos relevantes. Nessa edição de elucubrações e afins, tem muita música, cinema, literatura, curvas amorosas, descobertas diversas. Conteúdo interessante, acho, para corações e mentes sedentas.
Saudades de Francis
Começando de trás para frente, ontem, graças a uma oportunidade única no trabalho, pude folgar e curtir o dia, como qualquer vagabundo gosta de fazer. Aproveitando a circunstância, bastante interessante, fui conferir o retrato amoroso e particularíssimo do controverso Paulo Francis, em Caro Francis, do diretor Nelson Hoinneff, o mesmo que fez, recentemente, Alô, Alô Terezinha, sobre a obra de Chacrinha. A película é, de fato, ótima, mas, seguindo uma tendência do documentário nacional recente, trata o personagem de uma maneira tão íntima, mas tão íntima, que nos apresenta determinados fatos irrelevantes para o entendimento da figura pública. Claro, em alguns momentos isso traz informações relevantes, mas, na maioria das vezes, nos deixa com um enorme ponto de interrogação na fuça. Como posso dizer que sou fã de Francis, e acompanhei muito de sua obra (livros publicados, por e sobre ele, inúmeros artigos mais ou menos recentes, artigos da época de Pasquim, vídeos do Manhattan Connection e dois preciosos programas Roda Vida, datados de 94 e 95) entendi a maioria dos fatos apresentados. Os pontos mais interessantes do documentário são, obviamente, as aparições engraçadíssimas e eruditas de Mr. Francis, e os comentários, como direi, pra lá de "assertivos", de seu amigo e pupilo Diogo Mainardi. É um documentário de interesse bastante específico, ainda mais em se tratando desse novo Brasil, mais raso em decorrência da popularidade e aprovação de Lula (que beira os 95% entre os que o consideram ótimo ou bom). Porém, se seu intuito é conhecer um personagem brasileiro como poucos, controvertido até o último fio de cabelo, vale muito a pena.
Walter Lima Jr., e sua aula de trilhas para cinema
O domingo da volta de feriado de Zumbi, com a cidade deliciosamente vazia, foi minha data escolhida para conferir o projeto Trilhando, com a presença do cineasta Walter Lima Jr. (Os Desafinados, A ostra e o vento, Ele, o Boto, Inocência, entre outros). Para variar, o excelente trabalho da equipe do Sesc foi visto por pouquíssimas pessoas. Às vezes fico pensando na quantidade de pessoas que reclamam não haver cultura a preços populares. Besteira da grande, meus caros, pelo menos na cidade de São Paulo. Paguei R$ 6 por um ingresso para assistir a um show belíssimo de Leila Pinheiro, Péricles Cavalcanti, orquestração de Roberto Sion, com direito a Sax, clarinete, trompete, baixo acústico, violão, bateria, violino e viola. Não bastasse isso tudo, ainda pudemos assistir a uma aula de cinema e trilhas com Walter Lima Jr. O que posso dizer é que a noite foi especial, com Leila e Péricles desferindo grandes clássicos de nosso cancioneiro, acompanhados pela orquestra de Roberto Sion. Sem dúvida alguma, dos melhores shows que assisti esse ano.
Waldick Soriano, o velho canalha, pero romântico
Sei que sou uma pessoa estranha e diferente na maioria das coisas. Tudo o que foge do famigerado senso comum me interessa. Coisas que ninguém gosta, me interessam profundamente. Se o povo, em geral, odeia, deve ser bom. Se as pessoas comuns não entendem, certamente entenderei e gostarei. Se é marginal, então, deve ser o máximo! Brincadeiras à parte, é sempre muito prazeroso poder ver uma fila de 400 pessoas (adultos, em sua grande maioria) se estapeando para assistir à película Lua Nova, novo filme da saga Crepúsculo, enquanto minha fila para assistir ao documentário Waldick Soriano inexistia. Pode até ser mania persecutória, mas senti olhares de reprovação à minha escolha completamente contramão, ainda mais em se tratando de um sábado à noite. Deviam pensar, ao me ver só, esperando a abertura da sala: "O que leva alguém a assistir um filme desses numa noite de sábado? Esse cara deve ter depressão!". Ou algo do gênero.
O mesmo que eu disse sobre o documentário Caro Francis pode, facilmente, ser comentado sobre Waldick, justamente por causa do tipo de retrato passado no filme. É preciso, sim, conhecer bem Waldick, e sua história e obra, para conseguir compreender todos os pontos destacados e sublinhados no filme. É uma pena, já que quem não tem tanto conhecimento assim desse personagem, como é meu caso, sai do cinema sem entender uma série de passagens aparentemente importantes. Uma pena. Esse é um retrato afetivo construído por Patrícia Pilar (a atriz) e Ciro Gomes (o proto-político do saco roxo), fãs ardorosos de Waldick.
Bra Boys, o documentário
Apenas montando esses escritos é que fui me dar conta do caráter documental do meu final de semana. Esse foi o terceiro documentário que assisti em pouco menos de dois dias. Bom, então, vamos a ele. Bra Boys foi um documentário que baixei, muito por acaso, no salvador blog Arapa Rock Motor, que sempre, invariavelmente, disponibiliza uma série de filmes e documentários alternativos de alta qualidade. Esse Bra Boys, especificamente, me chamou a atenção por dois fatores: o primeiro deles foi a capa, com alguns sujeitos mal encarados, cheios de tatuagens com o marzão servindo de fundo. Logo associei a imagem a algum filme violento realizado na praia. Pensei tratar-se de alguma versão caiçara do clássico The Warriors, que, sempre que posso, assisto e decoro as falas. O segundo fator foi uma frase pequena na capa do filme, "narrado por Russel Crowe". Logo que li o segundo fator, automaticamente desmontei em minha mente o primeiro. Ou seja, tratava-se de mais um exemplar do vasto mundo dos documentários.
Segui meus instintos e o assisti bravamente. Trata-se, como fui descobrir depois, da comunidade "Bra Boys", que habita os arredores da praia de Maroubra, em território australiano. Enfim, caros amigos, o lugar é daqueles paraísos que todos sonham em viver um dia, depois da sonhada aposentadoria. Porém, apesar de possuir uma praia belíssima, cheia de vida, com um mar verde e um clima absolutamente delicioso, os surfistas "Bra Boys" tomam conta do referido paraíso, porém, de uma maneira bastante particular.
A película trata da vida de alguns dos membros da comunidade, alguns famosos surfistas, outros nobres anônimos, suas festas, reuniões, galhofas ao ar livre e, principalmente, suas brigas homéricas. O filme perpassa, também, bastante por cima, a história local australiana, e, em determinado momento, esbarra no melodrama ao tratar de um assassinato que contara com a participação de 2 ou 3 membros da comunidade "Bra Boys". No final das contas, "Bra Boys" se sai muito bem e fica como recomendação aos amigos leitores.
Se quiser conhecer, pelo menos à distância, Maroubra Beach, clique aqui e veja o paraíso no Google Maps.
Nelson Motta lança Força Estranha
Bom, Nelson Motta é um daqueles sujeitos que todas as pessoas do planeta terra inteiro e das galáxias gostariam de ter sido. Ou, também, isso pode ser mera projeção minha. O cara viveu intensamente a época da bossa nova, conviveu com os maiores ícones musicais desde o começo da década de 60. Acompanhou diversos cantores e grupos em viagens aos Estados Unidos para lançar, lá, o nosso querido e doce movimento, nascido e criado, cheio de ranho no nariz e pés descalços, ali pelas praias de Copacabana, Ipanema e Leblon. Balançava, cheio de suingue, a cabeça e o corpo, pra lá e pra cá, nas famosas tardes de violão e ponche na casa de Nara Leão, ao lado de figuras como João Gilberto, Chico Buarque e Ronaldo Bôscoli. Fez parcerias de extremo sucesso com inúmeros cantores, comeu a Marília Pêra e a Elis Regina, produziu e lançou, no começo da década de 90 a, hoje, diva absoluta (para os outros, não para mim), Marisa Monte. Depois, cansado da vida, foi passear em Nova Iorque e, por acaso, começou a trabalhar no Super Manhattan Connection, ao lado de ninguém menos que Paulo Francis. Enfim, Nelsinho, como é conhecido dos íntimos (dos quais infelizmente não faço parte), lançou, há pouco mais de 2 semanas, Força Estranha. São algumas histórias reunidas, contadas pelo narrador, com eventos de toda a sorte em Brasília, Rio, Salvador, Boipeba (a ilhota paradisíaca colada em Morro de São Paulo), Buenos Aires e inúmeros outros lugares. Provavelmente, (digo isso pois não li, ainda, nenhuma resenha sobre) são histórias vividas pelo próprio Nelson Motta. Quem se emocionou muito e rezou para não chegar ao fim das páginas de Noites Tropicais, com certeza gostará desse lançamento.
Se você por acaso não gostar do dito cujo, aproveite essa época de festas e pelo menos dê de presente de natal para seus amigos e familiares de ótimo gosto.
Curtindo um som e sentindo a brisa
Momento de total easy listening, com canções de Jack Johnson que, honestamente, não sei por que deixei de ouvir há alguns meses. O lançamento “En Concert” é absolutamente fantástico. Mesmo aqueles que não curtem praia, por exemplo, podem ouvir o som e sentir a brisa suave do mar batendo sobre o rosto, aquele sol delicioso da manhã torrando as maçãs do rosto. Aos que curtem areia, sol e mar, é colocar no repeat do aparelho de som do carro e procurar a praia mais próxima.
Além de Johnson, descobri uma raridade preciosa, um som australiano chamado The Beautiful Girls. Coisa de primeira qualidade. Seguem um estilo muito próximo ao de Johnson. A canção “La mar” deveria ser a música do nosso próximo verão. Se não for, será, ao menos, do meu verão particular.
Julian Casablancas lança solo Phrazes for the Young
Aos que sentem saudades do Strokes, podem muito bem se virar, por ora, com o lançamento de Julian Casablancas: Phrazes for the Young. É um disco que segue a fórmula vitoriosa do Strokes. A voz de Julian está lá, intacta, a bateria ao estilo Fabrizio Moretti também segue na mesma. A tradicional guitarrinha nervosa também marca presença. “Quer dizer, então, que o som é praticamente o mesmo do finado Strokes”, vocês podem se questionar.
Pois sim, é muito parecido. Muito mesmo. Salvo um ou outro momento do disco em que há uma presença forte de sintetizadores no pior estilo anos 80 (que me desagradam profundamente), além de solos circulares de guitarra, trata-se, sim, de Strokes puro.
postado por Ricardo Lima às
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