15.11.09

Caderno de anotações, elucubrações, memórias e rabiscos (Parte VI)

Jovens, uni-vos (começando brega esse texto)

Pois bem, posso dizer e assegurá-los que, durante essa semana, tive duas demonstrações da força do jovem. Acho graça, honestamente, enquanto essas palavras saem da minha cabeça e começam a ser digitadas nessa folha de papel digital. Tudo isso pois nunca pensei que fosse envelhecer ao ponto de colocar “o jovem”, “a juventude”, em algum texto e não me inserir. Pois é, trata-se do passar dos anos e, como bem diz mestre Mário Viana: A vida acontecendo em pleno gerúndio.

Tenho um amigo novo, novíssimo, no banco e pude conversar com ele sobre sua escolha de carreira e mercado de trabalho. Optou por uma carreira de Desenho Industrial e toca o curso com muita dedicação e afinco. Gosto disso. Quero dizer: gosto de pessoas que tomam rumos e decisões, acertadas ou não, baseadas muito mais no coração e na emoção do que propriamente na razão. Isso, talvez sim, talvez não, mostre a força da geração que vem por aí. Sei que a minha, salvo algumas raríssimas exceções, possui um gosto pelo novo, pela novidade, por tudo que está para surgir. Há uma febre. Em muitos casos, isso é desmedido e a falta de foco atrapalha muito, mas, melhor assim do que a apatia das pessoas nascidas nas duas décadas anteriores.

Esse garoto, rapaz, do qual eu falava, começou sua carreira na área por, entre outras coisas, influência minha. Sei disso, e talvez nem mesmo ele saiba. É aquele tipo de coisa que fazemos e sentimos sem saber ao certo como explicar. Conversamos longamente sobre seus trabalhos, sobre suas dúvidas e afins. A cabeça de quem é mais novo é recheada de encontros e desencontros. Isso, a meu ver, é o grande barato dessa idade, do começo dos 20 anos. As decisões de vida, de carreira, de rumo, tudo. Ele está no caminho certo, mesmo sem saber. Fiquei feliz com sua evolução e, acima de tudo, com seu amor pela carreira. Pode ser que não se torne rico, mas sempre será feliz, pois fez a escolha certa, adequada ao que o coração mandava. O que é melhor? Escolher o caminho financeiro, por mais tristeza e dor que este possa trazer, ou o caminho da realização? Isso só o tempo poderá dizer e ensinar.

Ontem, tive o prazer de dividir momentos junto a um primo, novo também, em começo de escolhas de carreira. Cursa arquitetura e está contentíssimo com tudo o que vê. O novo, como sabemos, é sempre interessante, ainda mais quando existe algo chamado amor. Rodamos São Paulo, algumas regiões. Caminhamos pela Avenida Paulista, comentamos sobre as obras de Rino Levi, sobre a grandiosidade do Conjunto Nacional, sobre a sobriedade da obra da Fiesp e sobre o estilo inconfundível de Paulo Mendes da Rocha. Ícones máximos para alguém como ele, que fez a escolha correta e se espelha nos grandes mestres. Não há segredo algum. Amor e interesse. Pré-almoço com visita à Bienal Internacional de Arquitetura que, apesar de estar muito pobre esse ano no quesito conteúdo, despertou sua enorme vontade de expor opiniões, sentimentos e pontos de vista sobre o que via. Observar os olhos de satisfação de meu primo foi, nos últimos tempos, das melhores sensações que tive. Sempre gostei, durante o início de minha carreira, de encontrar pessoas para compartilhar esses sentimentos. Encontrei poucos e preciosos, mas que fizeram toda a diferença. Talvez soframos de carência intelectual, nesse nosso mundão tão raso. Digressão desfeita, pós-almoço fomos visitar o paraíso construído por Lina Bo Bardi: Sesc Pompéia.

Cinema

Semana também recheada de descobertas cinematográficas. Algumas decepções enormes no meio desse caminho, mas também algumas películas muito interessantes. Assistir à esquizofrenia de Jamie Foxx em O Solista não foi das sensações mais agradáveis que tive em vida. Quero dizer, o filme tenta ser bom, se esforça, os atores tentam de tudo, mas no final o resultado é muito insatisfatório. O filme carece de ritmo, carece de alma. Tudo está lá, mas ao mesmo tempo não está. A película se arrasta pela tela durante longuíssimas duas horas. Eu, pessoalmente, não recomendo que ninguém vá assistir.

Quanto ao doce e leve 500 dias com ela, é só prazer. O filme é daquele tipo que engana quem procura por algum filme naqueles caderninhos com a programação dos cinemas da cidade. Isso, porque tem todo o cheiro e jeito de comédia romântica. De fato o é, mas com um ritmo e uma ironia deliciosos. Consegue inverter todos os clichês da menina romântica que procura um cara e sofre dia após dia com inúmeras decepções amorosas. No caso, Joseph Gordon-Levitt, de Third Rock from de Sun, faz o papel do menino romântico, cheio de sonhos e desejos. Tom, Gordon-Levitt, conhece Summer, interpretada pela ótima Zooey Deschanel e começa a viver as agruras de amá-la intensamente sem ter certeza da reciprocidade de seu sentimento. Tudo se desenrola durante os tais 500 dias do título. Dos que estão em cartaz, possivelmente é o melhor. Ou estou sendo muito tendencioso. Tanto faz.

Ontem, voltando aos blockbusters, pude conferir Código de Conduta, que conta com Jamie Foxx e com Gerard Butler, o novo Russell Crowe dos cinemas. Enfim, não é daqueles filmes que nos faz pensar muito, mas asseguro que cumpre bem sua proposta de entreter o público. Sim, trata-se de um filme bobinho, mas serve muitíssimo bem para aqueles momentos em que não há muito ânimo e vontade de pensar algo mais profundo.

Outra das delícias do cinema em cartaz está a mezzo comédia mezzo drama À procura de Eric. A história se desenrola na vida de Eric Bishop, um carteiro fodido e, literalmente, mal pago. A vida de Eric não tem graça nenhuma há mais ou menos 30 anos, quando se separou de sua esposa, grávida de sua filha. Nos 30 anos que se passam, a única alegria de Eric é ver seu homônimo, o jogador Eric Cantona, do Manchester United, fazer belos passes e gols, ora ao vivo, no estádio de Manchester, ora pela televisão, mas sempre em companhia dos bravos e fiéis amigos dos Correios. Em determinado momento, no auge de crise existencial de Eric Carteiro, Eric Cantona dá as caras e passa a aconselhá-lo aleatoriamente sobre tudo e todas as situações. Um filme, confesso, bastante simples, mas incrivelmente delicioso de ser assistido. Assistam! É garantido. Claro, trata-se de mais um Ken Loach.

Literatura

Mais uma coisa incrível que tem acontecido são as páginas otimamente escritas por Erasmo Carlos em seu Minha fama de mau. De minhas últimas leituras, possivelmente é a mais interessante. Erasmo possui um coração enorme, cheio de vida, e as histórias sobre a Jovem Guarda, tudo o que aconteceu durante a vida do mestre, e sua amizade espiritual com Roberto Carlos, são de arrancar sorrisos e lágrimas em questão de pouquíssimos parágrafos. Eu recomendo fortemente a leitura!

Música

De todos os últimos sons baixados ou comprados, o destaque absoluto segue sendo Duper Sessions de Sondre Lerche. Pelo que li por aí, o cara não foi divulgado ainda por aqui, e pouquíssimas pessoas o conhecem. Já cheguei a colocar um vídeo aqui de Sondre, e espero que os amigos e leitores possam compartilhar comigo desse gosto. Vos garanto que é material de primeiríssima qualidade. É jazz, mas ao mesmo tempo é pop. Difícil definir. Se tivesse que compará-lo a alguém que já está na estrada, o compararia ao talentosíssimo pianista Jamie Cullum.

Próximos capítulos

Assistir ao recém baixado Whatever Works, do mestre Woody Allen. Gostaria, confesso, de esperar sua chegada aos cinemas, mas esperar por mais algumas semanas não está entre meus planos. Façamos assim: se for lançado na sexta-feira que vem, dia 20/11, posso esperar. Caso contrário, assistirei. Ouviram, distribuidoras de filmes?


postado por Ricardo Lima às