27.10.09
Dos outros - A mão sagrada, de Alexandre Soares Silva
Queria ter escrito, mas quem escreveu foi ele:
Eu sei que "não se deve colocar mulher num pedestal", por favor, né, considerando-se os defeitos delas, que não sabem somar nem dividir, que não entendem que exceções não invalidam regras, que votam mal, que não gostam de ficção científica, e que mesmo as mais bonitas têm lá os seus dias de pele gordurosa, espinha, bafo. Eu sei, mas qual é a graça de ter uma mulher bonita, ou até só de chegar perto de uma mulher bonita, se não for para colocá-la no pedestal muito de vez em quando? Se não for para sentir de vez em quando um pouco do sentimento de veneração? Você acha mesmo que não existe nada de sagrado numa mulher muito bonita? (Isso tudo admitindo que os homens mais espetacularmente fracassados com mulheres que já vi na vida são os que não conseguem desligar o botão de veneração nunca, entrando num looping de rapapés asqueroso e infinito, melífluo e abichornado. Mas mesmo assim.)
Só sei que, se a minha mão esquerda entrasse uns segundos por debaixo da saia de Scarlett Johansson, eu, que também acho que "não se deve colocar mulher num pedestal", consideraria para sempre a minha mão sagrada. Ou qual a palavra - numinosa? Olharia para a minha mão com pasmo - como se fosse a mão de Arthur que tocou em Excalibur, ou a de Jacó que lutou com o anjo. Mostraria a minha mão para os netos como se lhes mostrasse a cruz do Calvário. "Ó, sente o cheiro, nunca mais lavei". "Ai vô, pára". Exigiria que as pessoas abrissem caminho para mim no correio, no supermercado: "Saiam da frente que eu pus a mão entre as pernas da Scarlett Johansson". E acharia perfeitamente natural, de fato esperaria isso o tempo todo, que uma pessoa que estivesse conversando comigo durante uns minutos, vendo a minha mão esquerda casualmente repousada e semifechada em cima da mesa, de repente se lembrasse onde aquela mão tinha estado, e sentisse um arrepio e perdesse o fio dos pensamentos, e não conseguisse conversar mais nada, e não tirasse mais os olhos da minha mão de velhinho.
postado por Ricardo Lima às
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