27.10.09

Caderno de anotações, elucubrações, memórias e rabiscos (Parte V)

Fiquei me questionando, hoje pela manhã, se é normal mesmo estar de saco cheio em plena segunda-feira! Uau, a vida é muito engraçada mesmo. Ou sem graça. Dá na mesma, segundoa filosofia. O ser e o não ser, o estar e não estar, é tudo a mesmíssima coisa. Loucura isso, não? Numa quinta-feira, inicia-se a graça e a alegria. Sexta-feira é quase o nirvana na mente e no coração. A aproximação inevitável da segunda-feira começa a amargar a consciência. Será que isso é algo normal na cabeça de todos os seres humanos? Não que isso possa, de alguma forma, me deixar mais confortável perante a realidade, mas, é sempre bom descobrir que todos estamos na mesma barca. Rumo a que lugar eu não sei. Mas, todos ali, juntinhos, sentindo o CCzinho alheio. O azedinho. A contragosto, mas sentindo.

Hoje, pelo que vi nas versões eletrônicas dos jornais (que mão na roda não precisar mais comprar Folha, Estadão e Veja), haverá um filme com Gael Garcia Bernal e Michelle Williams (que está ficando velha, feito Bridgitte Bardot, da canção de Tom Zé). Se bem me lembro, o nome do filme é: Corações em Conflito. Será que é bom? Não sei. Um ou outro jornal, ou revista o indicou como “interessante”. Talvez seja. Talvez não. Sabe-se lá. Se der tempo, e o ânimo voltar durante esse dia, claro, de repente, assim, como quem não quer nada, ou melhor, como quem quer assistir a um filminho, conferirei a tal película. Se for boa, comento por aqui. Para quem quiser, segue o serviço: Cine TAM, sala Paris, às 21h30. Por tratar-se de uma das salas de cinema do Shopping Morumbi, creio que não haverá muita gente chata, já que a localização geográfica do referido prejudica muito a locomoção dos amantes da 7ª arte, que comparecem aos borbotões nessa Mostra de Cinema. Se a sessão acabar próximo à meia-noite, tanto melhor (para mim, note-se). Aos que moram longe: LOSE. Os que moram perto, just like me, one little word: WIN.

Uma exposição que me parece boa é a de Robert Doisneau. Trata da produção encomendada de Doisneau, das décadas de 30 e 40, a pedido da Montadora Renault. Vi algumas fotos do catálogo e gostei bastante. A quem interessar possa, a exposição está rolando no Centro Cultural da Fiesp, na Avenida Paulista, no coração do Brasil (dá-lhe Melodia).

Já ia me esquecendo de falar sobre o show de Luiz Melodia, que rolou no sábado à noite, no Sesc Vila Mariana. O formato do show é parecido com um CD que Luiz gravou há uns bons 10 anos. Apenas o violão de Renato Piau (que toca pra cacete!), fiel escudeiro de Melodia, e a percussão impressionante de Nana Vasconcelos. Confesso que percussão é algo que não me atrai muito. Acho, em alguns casos, uma barulheira desnecessária, que só atrapalha arranjos e linhas melódicas. Talvez eu tenha bebido nas fontes erradas. É uma possibilidade. No caso de Naná, há uma preocupação quase autista em apenas complementar as canções, a voz e o violão. E isso, meus amigos, faz toda a diferença. Não à toa, Nana é considerado o maior percussionista brasileiro. Em relação ao show, não há muito o que dizer. Basta comentar que a lotação estava esgotada nos três shows (sexta a domingo), e que todos cantaram quase todas as canções. Melodia segue em excelente forma e torna-se, ao seu modo, o novo João Gilberto. “Que estranho esse comentário”, podem pensar vocês, caros leitores. Explico-me: Melodia possui um repertório bastante limitado, apesar de contar com estrondosos sucessos. Apesar disso, a cada dia, busca uma nova leitura das canções.

Outro fato que ia me esquecendo de comentar foi o show, que quase passou desapercebido, de Guinga. Não sei muita ou pouca gente conhece o trabalho de Guinga. Cheguei a resenhar, se não me engano, Noturno Copacabana. Ou foi Cine Baronesa. Hummm, deixemos pra lá esse resgate tosco do passado. Enfim, seu trabalho no violão é impressionante. Ouvi poucos violonistas até hoje, mas, desses, Guinga com certeza figura entre os melhores. Imaginem vocês uma prateleira com nomes do calibre de Paulinho Nogueira, Rafael Rabello, Yamandú Costa e Baden Powell. Certamente, poderíamos acrescentar o nome do músico carioca a esse seleto grupo. O show foi chiquitito, pero cumplidor. Apenas Guinga ao violão e voz, em uma ou duas músicas, um clarinetista, cujo nome me foge à memória (Paulo Sérgio Santos, devidament googlado), e o lendário baterista Oscar Bolão (e somente descobri que o cara era lendário nessa apresentação. Toca uma bateria para ninguém nesse mundo botar defeito!). Enfim, o show foi basicamente instrumental e serviu para apresentar algumas canções do repertório do novo CD e DVD de Guinga. Ótima noite de quinta-feira, mas com pouquíssimas pessoas na platéia.

Subvertendo completamente essa história de tempo-espaço, deixando de lado essa maneira horrenda cartesiana de ver o mundo, voltamos altivos e saltitantes para a domingueira, vulgo “ontem”. Então, domingo foi dia de ver uma exposição curiosa no Tomie Ohtake. Quer dizer, ver não seria bem o termo. “Entender” seria a melhor palavra na situação em que me encontrei por lá. Paraísos Possíveis, de Dias e Redwig, trata, como o próprio nome diz, de lugares que são paradisíacos. Porém, esse paraíso representa a forma como cada um enxerga. Por exemplo, eu projetaria o paraíso com poucas pessoas e cenários idílicos. Outros preferem o caos, e veriam o paraíso dessa forma. Caótico e desordenado. Questão de visão. Essa parte da exposição, foi boa e entendível, mas nada que se possa dizer “puxa, que incrível!”. Na outra parte, há uma série de maletas e vídeos associados. Dessa, o entendimento foi nulo. E, portanto, considerei, logo de cara, a exposição, como um todo, uma merda. A outra exposição presente no Tomie era Cartazes de Chaumont, que foi ótima. Não há muito o quê comentar em relação a essa, já que são apenas cartazes, datados ano após ano, com motivos distintos para o mesmo festival.

Não falando do domingo, mas de algum dia qualquer, comprei, após folhear indiscriminadamente, O imitador de Vozes, de Thomas Bernhard. Leitura incrível. Compre você também, mas apenas se gostar de um tipo de literatura que lhe encha de pessimismo em doses cavalares. São historietas curtas de uma página, no máximo uma e meia, que falam sobre distúrbios diversos, maldades, ódio, raiva, rancor. Não, não quero que vocês, queridos leitores, passem a desgostar da obra de Bernhard sem ao menos terem lido algo. Imaginem um texto com trechos que se repetem à exaustão, mas sempre, ao final, com saídas magistrais. Há, além do já citado pessimismo, um jeitão irônico de escrever que pouquíssimos autores conseguiram realizar em toda a história da literatura no mundo.

Sei que novembro ainda nem chegou, mas, obviamente, é hora de começar os planos de shows, peças, livros, filmes, discos, expos, passeios e afins. Não quero aqui fazer um clipping babaca com esses eventos, mas sim uma coisa descontraída e interessante. Então, vamos lá:

• Escuta Zé Mané - Peréio estará, até o final de novembro, no teatro do Sesc Paulista para encenar, junto a João Velho, ator e filho do próprio, a peça Escuta Zé Mane, de autoria de Wilhelm Reich. Tem Peréio, não é mesmo? Então eu vou, porra!

• MPBlack – A direção desse show é de Bocato, trombonista dos melhores. As cantoras que fazem parte do projeto são: Negra Li, Lady Zu e Nina Becker. Acho que o evento promete. Primeiro, por ser dirigido por Bocato, que manja demais de Black Music. Ou acho que manja. Em segundo, pela participação da Negra e da Nina. Não sei quem é Lady Zu. Se fosse ruim, não teriam chamado. Acho. Será que vou?

• André Mehmari – Quando milhares de pessoas em jornais e revistas começam a incensar alguma personalidade qualquer, seja do mundo da música, seja do mundo dos mortais, tendo a colocar não apenas um pé atrás, como também o outro. Pode ser um preconceito idiota, mas tendo a achar que conheço mais de música do que quem passa o dia todo enfurnado dentro de um escritório de um jornal qualquer. Mas, nesse caso, após ter visto o repertório do show, estou abrindo uma exceção e irei conferi-lo. Mehmari será acompanhado de Violoncelo, Contrabaixo acústico e viola caipira.

• Danilo Moraes – Depois de um começo promissor de carreira, Danilo, que é filho do aborrecido Wandi Doratiotto, que apresenta o Bem Brasil, da TV Cultura, sumiu completamente do mapa. Quer dizer, não sumiu! Danilo participou de uma edição de festival musical da Cultura, alguns poucos anos atrás, e, por ter ganho de Fabiana Cozza (a queridinha da Vila Madalena e adjacências, que não entendo como pode arrastar tantas multidões apaixonadas), quase fora linchado na porta do Sesc Pompeia, onde se realizava o referido evento. Os críticos, à época, diziam que Danilo havia vencido somente por ser filho de Wandi, que trabalha na TV Cultura, e todo aquele blá blá blá que só os perdedores conseguem ter. Claro, Danilo ousou tocar MPB para um público predominantemente rasteiro, preso a tradições idiotizadas, no qual o samba é tido como única manifestação legítima, sem qualquer tipo de respingo de outras culturas. Como eu disse, o tipo de papo dos maus perdedores. Enfim, Danilo tocará no Sesc Pinheiros e será possível resgatar sua curta, porém profícua, carreira e obra.

• Trilhando, com Walter Lima Jr. – Sei que é um evento que acontece há anos no Sesc Pompéia, mas só fiquei sabendo de sua existência agora, em 2009. Pude conferir a edição do Trilhando com Sandra Werneck (Amores possíveis e Cazuza), e foi de lascar. Sensacional. Emocionante até mesmo para o mais bruto dos brutos. Creio que o evento com Walter Lima Jr. será no mesmo estilo, já que Waltinho, como é conhecido no meio artístico (ou não. Isso é apenas um chute), dirigiu longas do naipe de “Os Desafinados” e “A Ostra e o Vento”. Aposto em uma trilha bem bossa-novista, percorrendo ruas e vielas da memória da MPB brasileira. Os convidados da vez, para encher nossos ouvidos de acordes dissonantes, ou não, são Leila Pinheiro, ao piano, e Péricles Cavalcanti, que apesar de ter esse nome de pagodeiro, é MPbista, na guitarra.

• Os Gêmeos – Começa a rolar agora, e se estende até dezembro, a exposição com inúmeras obras cheias de serezinhos amarelos dos irmãos Pandolfo em muros, telas, painéis, caixas e afins, no Museu de Arte da FAAP. Na faixa.


postado por Ricardo Lima às