21.10.09

Caderno de anotações, elucubrações, memórias e rabiscos (Parte IV)

João Pereira Coutinho, brilhante como sempre, no artigo de hoje da pensata, da Folha de S. Paulo, trata sobre um assunto que não sai das rodas de conversas sobre a internet: o tal vídeo polêmico em que a atriz Maitê Proença teoricamente ridiculariza Portugal. Abaixo, segue o vídeo que circula na terra do fado, retransmitido pela Televisão portuguesa "Sic":



Comento

Se nunca tive nenhum tipo de sentimento por Maitê, passei a ter. Nem tanto pelas piadas, extremamente sem graça, mas pela sua atitude. Maitê encontrava-se ali, em terras portuguesas e teceu comentários jocosos sobre o lugar. Ponto. Assim como americanos fazem quando pisam por aqui. Ou como marroquinos fazem quando pisam na Inglaterra. Enfim, posso até estar equivocado, mas não há nada de errado em fazer uma piada ou outra sobre um país, seu povo e sua cultura. Que mal há nisso? Honestamente, não entendi de onde veio tamanho sentimentalismo por parte de nossos amigos portugueses. É notório que há piadas aqui e acolá sobre brasileiros e portugueses. É um bullying saudável. É preciso ter um mínimo de senso de humor. É preciso, acima disso tudo, rir de si e rir da vida. Carregamos em nosso sangue nosso país, nossa genética, nossos valores, costumes, religião, raça, credo e afins, mas criar qualquer tipo de tabu sobre esses temas é uma idiotice imensa.

Os estereótipos, obviamente, são irresistíveis. Quem nunca fez qualquer comentário sobre um americano e o pintou com o estigmático barrigão à beira da churrasqueira elétrica, naquele jardim fétido e bem aparado, aquela cara patética, apatetada e, em frente à casa, uma ridícula bandeira estadunidense. Ou, ainda, nunca criou em uma piada, ou num comentario jocoso, o inglês como um bêbado insignificante, inveterado, com sua cara e bochechas rosadas. É mais do que natural. É, a meu ver, humano. Extremamente humano. Somos assim. E ponto.

Muitos se sentem envergonhados de fazer o comentário. Mas, deixar de fazê-lo não quer dizer que não se tenha vontade. Convenhamos: ser honesto e sincero pode ferir, mas é muito mais saudável. Alguns não acreditam nisso, mas a piada sempre carrega uma verdade consigo. Em alguns casos, trata-se de uma crítica indireta, ao melhor estilo "vamos rir disso para não chorar".

Há, tristemente, aqui e alhures, uma caça às bruxas. Não as tradicionais, dos contos, de Eastweek, mas sim ao "politicamente incorreto". Querem transformar o mundo num grande espaço sem piada ou preconceito. É uma repetição nesse espaço, tecer comentário sobre esse tema, já que já o fiz e talvez até mesmo tenha esgotado o assunto. Chamemos isso de revisionismo. Não se pode mais, em hipótese alguma, fazer troça de alguma deficiência. Não se pode esgotar piada sobre credo, raça, religião ou qualquer outra coisa. Não se pode ao menos rir de si mesmo sem que alguém não desfira o batido, "Ah, não fale uma coisa desses, pois é até pecado". Querem transformar o mundo em uma coisa qualquer insuportável, inclassificável, onde até mesmo os pensamentos fora do padrão serão condenados.

15h48

Depois de um dia de saco na lua, uma terça-feira insuportavelmente infeliz e tristonha, me vi hoje feliz, sorrindo e contente inclusive com meu trabalho. Coisa para ser comemorada. Ah, mas isso só pode mesmo ser obra desse sol de verão que baixou em terras paulistas nessa tarde intensa. Quente. Calorenta, eu diria. Muitos decotes, pele à mostra, calças apertadas, abanadores, suores, calores, sorrisos estampados nos rostos juvenis (e balzaquianos aussi). Muito mais gente contente do que triste. Para uma cidade como São Paulo, já é um avanço extremado. Enfim, o verão logo chegará e a alegria reinará. Olha, até parece um haicai: O verão logo chegará e a alegria reinará.

Quer dizer, ainda é meio de tarde e tudo isso pode mudar até as seis horas. Espero que não. Por que perder toda essa poesia bonita, cheirando a Tom Jobim e abertura de novela das oito? Por quê?


postado por Ricardo Lima às