12.8.08

Cinema - Uma Garota Dividida em Dois, de Claude Chabrol (La Fille Coupée en Deux)



Na minha modesta opinião, Claude Cabrol deveria figurar em qualquer lista dos melhores cineastas do mundo de todos os tempos. Nem tanto por sua excelência ao produzir seus filmes, mas sim pela regularidade (Cabrol consegue manter uma saudável média de um filme por ano, nos últimos anos, a exemplo de Woody Allen e outros mestres do cinema) e pela precisão constante dos temas retratados: a burguesia e sua decadência.

O conceito de "A burguesia e sua decadência", conforme vai acima, poderia render teses de mestrado, doutorado, pós-doutorado e afins, mas a mim pouco interessa me alongar especificamente sobre esse tema, por duas razões distintas: A primeira é que discordo do ponto de vista comum compartilhado pela maioria dos críticos de cinema, que vêem toda a história, invariavelmente, de fora, portanto, possuem uma visão estereotipada do que seja burguesia e seus rumos. A segunda, e definitiva, é que me interessa muito mais a história do filme e seus desdobramentos, do que qualquer rixa marota que os críticos (de esquerda, normalmente, que não se enxergam na tela e nos filmes de Cabrol) gostam de levantar quando comentam sobre "esse" ou "aquele" filme.

A história de "Uma Garota Dividida em Dois" é comum e poderia ser contada por qualquer outro cineasta. Nesse caso, especificamente, pesa a mão do cineasta. Chabrol possui uma característica avassaladora de produzir filmes simples, diretos e objetivos que nos fazam refletir algo do gênero: "Por que ninguém teve essa mesma idéia antes?". Pois sim, "Uma Garota" é mais do mesmo. Se comparado à sua película anterior, "A Comédia do Poder", com sua atriz-fetiche, Isabelle Huppert, "Uma Garota" pode até passar despercebido. No entanto, é perceptível que Chabrol se diverte nas linhas do roteiro e na direção bastante precisa.

A história gira em torno de 3 personagens: Gabrielle (Ludivine Sagnier), é uma apresentadora de televisão, completamente banal e fútil (eu sei, a definição parece redundante). Charles Saint-Denis (François Berléand) é um escritor famoso, apesar de escrever livros complexos que poucos lêem e todos comentam (algo parecido com o que acontece com Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, que todos adoram citar, mas poucos abriram alguma de suas obras). Por fim, há Paul Gaudens (Benoît Magimel, que, inexplicavelmente, atua de maneira absolutamente afetada, beirando a bichice mais safada e cafona), um playboy inveterado que vive dos rendimentos proporcionados por sua herança.

Em poucas linhas, pode-se dizer que o mundo gira ao redor do umbigo dos personagens citados. Gabrielle, a fútil apresentadora de telejornal (na realidade ela é a moça do tempo, como se diz por aqui) se apaixona por Charles Saint-Denis, o escritor intelectual. Charles é afeito apenas do jogo da sedução e da vagabundagem. Casado, sem filhos, com uma mansão monumental nos arredores de Paris, Charles se envolve (apenas sexo, claro) com Gabrielle. Usa, abusa e depois a abandona na conhecida rua da amargura. Enquanto isso, o afetado playboy Paul Gaudens investe todas as suas fichas em Gabrielle, mas, obviamente, em vão. Paul possui uma obsessão quase homossexual por Charles Saint-Denis, o que pode ser explicado por alguns conceitos freudianos (Complexo de Édipo) e pelo fato de ter crescido sem a presença do pai.

O cinema francês possui a capacidade de surpreender, mesmo quando nada acontece durante 80% do filme. São películas puramente faladas, calcadas na verborragia, o que muito me agrada. O roteiro dá, vá lá, suas piruetas, e Charles abandona Gabrielle, que se casa com Paul Gaudens (pensando em Charles, é verdade), que não suporta seu ciúme e aniquila, friamente, Charles Saint-Denis. Daí pra frente tudo segue sua normalidade no reino francês e todos viveram infelizes para sempre, como de costume.

Não se trata de um Chabrol brilhante, mas, mesmo assim, ainda é Chabrol.


postado por Ricardo Lima às