26.7.08

Cinema - Era uma vez



Que me perdoem os puristas, mas o sentimento despertado por essa belíssima película de Breno Silveira é, no mínimo, fascínio. Como ser humano, falível, fatigado, cansado e todos os etceteras possíveis e imagináveis, precisava assistir a uma história como a de Era uma vez, numa noite fria de sexta-feira.

Era uma vez trata basicamente sobre a construção de um amor adolescente impossível, entre o jovem morador do Morro do Cantagalo e a patricinha vitaminada da escaldante Ipanema. Mais simples do que isso, meus caros, é impossível. Breno conseguiu tratar do tema com certa dsesenvoltura (com a preciosa ajuda do mestre de todos os mestres do cinema nacional: Domingos Oliveira), mas, mesmo assim, não conseguiu escapar de todos os clichês possíveis que envolvem as diferenças da vida entre o morro e a cidade.

A história se passa no calçadão de Ipanema, onde Dé (interpretado pelo sensacional Thiago Rodrigues) passa os dias na labuta, vendendo cachorro-quente e observando apaixonadamente Nina (interpretada pela doce Vitória Frate).

Daqui para frente, o filme toma contornos óbvios de Romeu e Julieta, do amor idealizado, do amor sofrido, do amor impossível, das diferenças sociais, das famílias, do sofrimento adolescente, com toda a carga dramática e barroca que só o sangue juvenil consegue produzir em larga escala.

O filme acerta em todos os momentos em que se mostra leve, amoroso, carinhoso com o público e com os personagens, mas peca em inúmeros pontos quando tenta embutir sua crítica panfletária à elite e quando coloca os pobres do filme como miseráveis e produtos do, digamos, "meio em que vivem". Trata-se daquela velha tática usada pela esquerda para justificar as maiores atrocidades e retrocessos da história política e social pelo mundo afora.

Seria tolo e infantil pensar que todo adolescente de classe alta e média é maconheiro e alienado, bem como é ingênuo classificar todo pobre do morro como bandido, assassino ou vagabundo. Acredito que a regra geral seja a de que a maioria esmagadora, de ambas as classes, seja formada por pessoas de bem. Adaptando marotamente a célebre frase de Nelson Rodrigues, "todo maniqueísmo é burro".

O filme me lembrou muito a obra-prima máxima de Jorge Furtado, Houve uma vez dois verões.

Independente de qualquer comentário negativo que eu tenha desferido nas linhas acima, Era uma vez é um filme belíssimo da turma de Breno Silveira (de Dois filhos de Francisco), que merece ser assistido e degustado no que tem de melhor: um amor impossível.

P.s.: Atentem para a sensível atuação de Rocco Pitanga.


postado por Ricardo Lima às